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[19.11.09]
Mãos ao alto
Quando o meliante sacou a arma e apontou para a cabeça de Giliane, não teve jeito: ela disparou a bater palmas efusivamente. Essa mania estranha manifestou-se pela primeira vez na adolescência, depois de uma noite febril em decorrência da infecção urinária que contraiu no banheiro do salão de festas onde comemorou seus quinze anos. Daquele momento em diante, sempre que acometida por fortes emoções, ela se aplaudia involuntariamente. Por mais que tentasse conter aquele impulso doentio, a balzaquiana era vencida pelas próprias mãos. Foi assim no enterro da avó, no casamento de seu irmão, na sua primeira noite de amor, na extração dos sisos, no naufrágio do Bateau Mouche, até no reveillon que passou presa num engarrafamento da Avenida Brasil. Vários médicos, psicólogos e paranormais tentaram, em vão, conter aquela sina. Tudo em vão, até o fatídico assalto, naquela esquina deserta do Valqueire, onde ela jamais tinha passado antes. Egídio só queria sua bolsa e o iphone, mas quando a ouviu batendo palmas, acabou congelando. Era seu aniversário, e aquele gesto de desespero foi o mais próximo de uma congratulação que recebera. Contendo o choro, o rapaz ajoelhou-se e pediu perdão para Giliane, que livrou-se de uma tormenta e ganhou um amor bandido.
[ Publicado por Rafael Paschoal ]
[11.11.09]
Quem é quem no meio do apagão?
#1 – Normalmente, Sérgio só conseguia dormir depois da meia noite. Ele chegava do trabalho, tomava um bom banho, ligava para a namorada, jantava, trabalhava um pouco, lia algumas coisas da internet, assistia seus seriados e cuidava das plantas. Ontem, porém, ele chegou tão exausto que acabou apagando logo depois da chuveirada. Dormiu tão profundamente que só ficou sabendo do apagão quando entrou no ônibus. E pela primeira vez na vida, não se sentiu tão mal por estar por fora do assunto do dia.
#2 – Rodrigo é um rapaz vaidoso, que gostava de se exibir na webcam para ninfetinhas da alta sociedade. Noite passada, ele estava teclando com uma paquera de Ipanema quando foi pego de surpresa pela queda de energia. Tinha acabado de tirar a camisa, e mostrava com orgulho os bíceps avantajados que cultivara na academia em infindáveis noites de musculação. Do nada, ela sumira do messenger. Logo em seguida, acabou a bateria do nobreak. Sem outras alternativas para passar o tempo e desvencilhar-se do calor, o rapaz pegou uma lanterna e seguiu para a rua. Suas vizinhas, que já estavam sentadas em cadeiras de praia à beira da calçada, adoraram aquela visão descamisada, mesmo que sob a penumbra das velas. O galã, meio que se fazendo de bobo, sorriu para as banguelas. Dona Cosmerinda, cujos oitenta e poucos anos não a impediam de sassaricar como uma garotinha pelas ruas da Vila da Penha, resolveu pedir para tocar no peitoral talhado do rapaz. Foi um momento mágico, que por mais insignificante que pudesse parecer, mudou a vida de ambos. Hoje cedo, ele recebeu um email de sua nova amiga, convidando para dançar um tango no baile da terceira idade, que acontece todas as quintas, na praça de alimentação do shopping. Ele não levou nem três minutos para aceitar.
#3 – Tão logo as primeiras pipocas começaram a estourar, apagaram-se todas as luzes da casa. Regiane então ouviu seu pai amaldiçoando-a por ter insistido em ligar o microondas com toda aquela chuva. A guria ficou chateada por ter perdido um pacotinho inteiro de milho, e ele seguiu enfurecido até a caixa de disjuntores, sobre suas galochas encharcadas. Não demorou muito para descobrirem que a escuridão havia atingido todo o bairro, e por alguns segundos ela conseguiu respirar aliviada. Seu pai, no entanto, gostava de polemizar e a culpou pelo apagão. Discutiram como seres irracionais e, aos berros, o senhor de meia idade acabou arrancando o aparelho da tomada, atirando-o no quintal. Regiane não se fez por rogada: acendeu algumas velas e tirou a velha pipoqueira de despensa. Naquela noite, ela comeu uma tigela inteirinha de pipoca doce, sem oferecer para mais ninguém.
#4 – O elevador parou no 23º andar e a iluminação de emergência foi acionada. Denise e Astolfo estavam deixando a empresa, depois de um cansativo expediente onde o caos costuma ser a única constante e foram surpreendidos pelo apagão quando não tinham energia sequer para manterem-se de pé. Ficaram até mais tarde para fechar alguns processos, revisar propostas e conferir boa parte das contas. Os celulares estavam fora de área, e zelador do prédio não respondia aos sinais de socorro. Com as recentes projeções de uma iminente catástrofe climática, os dois começaram a temer por algo pior do que uma mera queda de energia. Passadas duas horas sem qualquer tipo de sinal do mundo lá fora, Denise tirou a roupa e atacou seu colega de trabalho. Se aquele era o fim dos tempos, ao menos terminariam suas vidas com prazer. Astolfo estava possuindo sua companheira de confinamento quando o fornecimento de energia foi restabelecido a as portas se abriram. Por sorte, ninguém os flagrou naquela situação comprometedora, e ainda deu tempo de gozarem.
[ Publicado por Rafael Paschoal ]
[10.11.09]
A beleza da ironia
Prova cabal de que a beleza não reside nos detalhes, e sim no conjunto, Adulênia era tida como horrorosa por todos que a conheciam. Seus cabelos ruivos despencavam em cachos pelos ombros, e os olhos azuis turquesa que herdara da avó materna, infelizmente, não ornavam com o todo. A rapariga bem que tentava dar um jeito naquela falta de harmonia, mas a verdade é que jamais ouvira um assovio de galanteio, mesmo que de um pedreiro estrábico. No fim das contas, era uma mulher triste e solitária, cujos únicos prazeres resolviam-se trancados dentro do quarto, longe dos olhos de reprovação que lhe eram reservados pela família.
Foi numa manhã de terça-feira que tudo mudou. Depois de passar a madrugada chorando sobre seu travesseiro, Adulênia foi derrubada pela exaustão. Não se sabe qual a receita da mandinga, ou se foi mesmo um milagre: o fato é que a moça despertou com uma forte dor na cabeça, e tão linda quanto uma princesa nórdica. A pele brilhava tal qual uma pérola, emoldurada por cabelos ondulados como o fogo, realçando seu olhar amendoado e cheio de vida. As curvas de seu corpo pareciam torneadas pelo mais talentoso escultor do período barroco, de tão sinuosas e perfeitas. Dizer que ela estava radiante seria blasfêmia. Adulênia experimentava um torpor quase orgástico.
Mas, como tudo na vida, há um preço alto a ser pago. Assim que despiu-se para entrar no banho, ela percebeu que também havia sido amaldiçoada. Da noite para o dia, Adulênia ganhou a beleza de mil mulheres, assim como o falo rijo e volumoso do mais fértil varão. Um pânico quase mortal a levou ao chão, onde permaneceu estática até ser encontrada pela mãe. Toda a beleza que exalara ao despertar foi substituída por um estado irrevogável de catatonia, que durou exatos cinqüenta minutos. Ao voltar a si, caiu no choro, e precisou ser consolada pelos braços curiosos de seus familiares.
Passado o susto, Adulênia resolveu procurar um especialista. Queria saber como poderia ter dormido horrendo para acordar travesti. Como era cética até o tutano, já tratou de excluir a hipótese de macumba ou feitiço. Aquilo não era obra do acaso, tampouco algo sobrenatural. Ao relatar tudo ao médico de plantão, recebeu uma careta interrogativa. Nunca antes fora testemunhado algo desse tipo, e ela seria a primeira pessoa no mundo a transmutar-se espontaneamente. Pelo menos, que se tenha registro. Nada que faça alguém se orgulhar, mas definitivamente era um diferencial.
Muito se falou, muito se cogitou. Mas nada trouxe de volta a sua paz de espírito. Depois de muito sofrer, Adulênia resolveu assumir sua condição de sexualidade ambivalente e mudou de atitude. Comprou alguns balangandãs nas lojinhas do Saara e passou três dias debruçada sobre a máquina de costura. Insistiu tanto que conseguiu apresentar-se no programa do Silvio Santos, onde ganhou com louvor o concurso de transformistas e ainda arrematou dinheiro o bastante para fazer uma cirurgia de mudança de sexo. Só não seguiu adiante porque descobriu, numa noite regada a vinho tinto e libido exacerbada com um ex-namorado de sua irmã, os prazeres da sodomia sob uma perspectiva mais drástica.
[ Publicado por Rafael Paschoal ]
[5.11.09]
A não correspondência
Adélio continuou enviando as cartas para o mesmo endereço, ainda que tivesse se passado uma década desde a última vez que a tivera em seus braços. O rompimento foi doloroso, mas inevitável. Já não se falavam mais com os olhos, pois os mesmos sequer se encontravam. Apesar do não amor, conseguiam evitar o ódio. Tudo seguiu o caminho natural, esmaeceu aos poucos, até não restar mais nem uma gota de querosene na lamparina. Apagou-se o fogo que outrora ardia com a força de mil sóis, e cada um seguiu seu rumo. Levou um bom tempo até que ele percebesse que havia cometido um dos erros mais estúpidos de sua vida. E então já era tarde. Não havia como arrancar a casca da ferida, pois em seu lugar restou uma quelóide: lembrança viva e disforme do trauma causado pela resignação. Numa tarde alaranjada de maio, escreveu a primeira e mais sofrida das incontáveis correspondências. Não recebia respostas, mas continuou naquela função. Um dia, talvez, descubra que suas palavras são lidas, sim, mas não por Ivonete – sua amada. Naquele apartamento, de teto rebaixado e piso de tacos, agora vive uma senhora triste chamada Regina. E seus olhos se enchem de lágrimas, a cada nova entrega que o carteiro faz. Talvez um dia ela se identifique, e se houver coragem... bom, se houver coragem ela assuma que se apaixonou por ele desde a primeira leitura.
[ Publicado por Rafael Paschoal ]
[26.10.09]
Desinibida
Érika salvou a planilha do Excel, largou o mouse e levantou-se de sua baia. Desceu cuidadosamente as escadas, passou pela recepção em silêncio e chegou à rua. Foi caminhando pelo sol, tirando suas roupas a medida que o calor aumentava. Ficou nua em pêlo até beirar a rodovia, e então parou. Por alguns segundos, parecia estar em transe, enquanto um grupo de pessoas se aglomerava nas imediações. Do alto da passarela, um pedinte a chamou de “gostosa”, no que ela respondeu com um salto duplo no asfalto. A platéia abobalhada aplaudiu e ela deu outros mortais. Os carros, em altíssima velocidade, tentavam desviar daquela inusitada situação, mas a sorte não durou muito. Um caminhão a esfarelou, deixando a paisagem da Rio-Petropolis intensamente avermelhada. Era fim de tarde, e ela havia descoberto, por email, que sua cor de esmalte favorita fora descontinuada pelo fabricante. Um fim trágico, mas ela não podia mais viver naquelas condições. Coisas da vida, sabe...
[ Publicado por Rafael Paschoal ]
[13.10.09]
Dia das crianças ou Trauma para toda a vida
Até mais que o Natal, Adelino ansiava mesmo era pelo dia das crianças. Comportou-se bem nas festas, tirou boas notas em matemática e até cuidou do aquário que ganhara da bisavó, sem que um peixe tenha morrido, sequer: só não deixou de puxar o cabelo da irmã, pois quem a conhece sabe que é impossível não se enfurecer com tanta manha e pirraça. Ele era merecedor de um presentão e não se conteve ao ver aquele embrulho enorme sobre a mesa da sala. Quase chorou ao ouvir que só poderia abri-lo depois do churrasco, quando todos já tivessem almoçado. Aflito, acabou batendo um prato de arroz com maionese em menos de cinco minutos. Depois, caiu no sofá, exausto de tanto esperar.
Acordou babando na almofada, com o barulho de papel sendo rasgado e gritos de alegria. Cambaleou em direção a sala até ver que toda a pirralhada estava em festa, com seus novos brinquedos, bonecas e triciclos. O coração de Adelino quase pulou pela boca, quando viu a mãe trazendo seu tão esperado presente. Em poucos segundos, ele desfez os laços e desembrulhou uma amarga surpresa. Aos nove anos de idade, o menino teve seu primeiro grande baque. Foi quando, precocemente, perdeu sua inocência pueril e sentiu o dissabor tão comum a vida adulta.
Diferente do que havia imaginado, ali estava a enciclopédia de seu tio avô, que morrera esclerosado num asilo em Barra de Piraí. Não era um ferrorama, nem um carinho de controle remoto. Ao todo, vinte e cinco livros, ricamente ilustrados. Nem de perto o que sonhara, Adelino também não conseguiu segurar: foi às lágrimas. Seu pai, com orgulho, pensou que o menino estava emocionado. Mas não, era desespero. Naquele exato momento, ele optara por fazer daquilo uma lição de vida. Largou a infância e leu todos os volumes, repetidas vezes, até prestar exames para a universidade.
Cursou medicina, graduou-se em primeiro lugar, especializou-se em neurologia, abriu seu próprio consultório e casou-se com uma garota que conheceu no doutorado. Tiveram dois filhos, e foram muito felizes. Quando seu primogênito completou dez anos, recebeu de presente a enciclopédia, que tanto tempo depois ainda mantinha seu aspecto original. Um cheiro de nostalgia tomou a sala. O mesmo silêncio agora via-se estampado no rosto do menino. No dia seguinte deram falta de Adelino. Ele havia desaparecido, assim como o ferrorama e o carrinho de controle remoto. Na fatura do cartão de crédito, uma viagem para a Disney... Finalmente ele tinha reencontrado sua infância perdia. E a felicidade que perdera por tantos e tantos anos.
[ Publicado por Rafael Paschoal ]
[8.10.09]
Intelectualmente incongruentes
Dalcira forrou a mesa com uma toalha de crochê, parou um pouco para observar o caimento das dobras e suspirou com um sorriso. Depois, distribuiu as cadeiras em forma de semi-círculo, limpou as bandejas de prata e poliu os copos de cristal. As cortinas foram escovadas, para não levantar poeira caso alguém resolvesse ligar o ventilador de teto. Infelizmente, o ar-condicionado não ficou pronto ao tempo, mas também não fazia calor. Naquela noite, a empolgada professora de ioga receberia um grupo de intelectuais e amigos, inaugurando um clubinho fechado onde discutiriam artes, filosofia, política, questões ambientais e problemas da metafísica.
Com o cair da noite, as pessoas começaram a chegar, estacionando seus luxuosos carros na calçada de pedras portuguesas. Regina levou um pacote de biscoitos amanteigados e alguns livros de poesia medieval. Orlêncio apareceu com uma quiche de beterraba marroquina e dois artigos inéditos sobre a nova linha de pensamento na psicanálise. Ecila chegou com um cavelete, papéis de alta gramatura e inúmeros crayons, além de seu inseparável whisky importado. Um pouco mais tarde, quem deu o ar da graça foi Odorico, trazendo um estudo sobre o novo cenário político-social do Rio de Janeiro, além de um pote com vegetais orgânicos em conserva.
Comeram e beberam até não saberem mais discernir suas próprias palavras. A reunião transformou-se num falatório sem o menor sentido, onde cada um ansiava pelo posto de umbigo mais centrado do mundo. Todos se expunham, mas ninguém se ouvia. Exceto por Ariclê, que era surda mesmo e ficou sentada num canto, esculpindo eunucos alados nas almofadas de madeira que adornavam a porta da sala da jantar. Dalcira, que já não conseguia mais absorver tanta informação, acabou gritando como um louca, batendo com os pés no piso de sinteco. O silêncio, então, impregnou-se pelas paredes. Todos permaneceram boquiabertos, até que a anfitriã resolveu quebrar o gelo.
Com a delicadeza que lhe é costumeira, ela seguiu até o receiver e colocou um cd no player. Em seguida, foi ao centro da sala e agachou-se sobre o tapete persa, que ganhara de presente em um amigo-oculto da academia. Dos auto-falantes, uma batida de funk pesado começou a tocar, e a dona da casa contorceu as pernas ao redor do corpo como uma lacraia no álcool. Tomada por uma vontade insana de causar rebuliço, ela foi empolgando seus convidados com uma ginga sensual. A princípio, alguns mostraram-se incomodados, mas por volta de meia noite, estavam todos com a mãozinha no joelho e dedinho na boca, descendo até o chão, para deixar a galera louca.
No fim das contas, todos se divertiram e saíram de lá com a barriga cheia. Mas de intelectual mesmo, ficou só a promessa vazia e imaculada. Dalcira não se queixou de nada, pois finalmente conseguiu se livrar do pudor que a impedia de quebrar paradigmas. Na semana seguinte, ficaram de marcar um novo encontro, e ela já começou a pensar no que poderia fazer para conseguir, mais uma vez, sobressair-se dentre os demais e ainda ser vista como uma pessoa agradável, bem quista. Pensou em servir o leite espesso que vertia abundantemente de seus seios, mesmo não estando grávida, mas lembrou-se que Ecila tinha intolerância a lactose. Sim, ela precisava de outra idéia, mas por hora se concentraria em organizar sua coleção de miniaturas pornográficas.
Bonus track: Gaiola das Popozudas "Proibidão"
[ Publicado por Rafael Paschoal ]
[2.10.09]
2016
#1 - De Saracuruna a Copacabana, Danielise foi empolgando a galera. Aproveitaram o ponto facultativo e alugaram uma van. O grupo estava em polvorosa com a possibilidade do Rio de Janeiro sediar as Olimpíadas de 2016, já prevendo as inúmeras festas e shows que se disseminariam pela cidade em comemoração à conquista. Quando saiu o anúncio, foi só festa. Pernas para o ar, beijo na boca e sensações inéditas. Danielise foi parar num quarto-e-sala da Padro Junior, com o mulambo que esbarrou enquanto comprava um espetinho de camarão frito. Foram três orgasmos, que ela jamais irá se esquecer.
#2 – Carlos Henrique estava no escritório, concentrado em seus cálculos, quando ouviu alguém gritar. Os jogos olímpicos viriam para o Rio de Janeiro, e ele só conseguia pensar no metrô entupido de pessoinhas alegres, vestidas de verde e amarelo, festejando um evento que só traria dívidas e confusão, legados legítimos de tróia para uma cidade que já sofre demais com seu cotidiano caótico e regado a cerveja. Por outro lado, sua esposa estaria tão contagiada com a notícia que até seria capaz de liberar a retaguarda, quando fossem para a cama. Quem sabe?
#3 – Nascida e criada em Ribeirão Preto, interior de São Paulo, Geonda mudou-se para o Rio de Janeiro em busca de sucesso. Foi morar em Copacabana, dividindo um conjugado com duas prostitutas. Não que ela fizesse programas, era só uma pessoa de mente aberta. Ao saber que a campanha Rio 2016 fora selecionada, explodiu de alegria. Desceu até a orla, catou dois gringos e fez uma suruba a três. O problema é que ela esqueceu de usar camisinha e não pegou o telefone dos gringos. Seria mais uma criança bastarda a caminho da cidade maravilhosa...
Bonus track: Ivete Sangalo "Festa ( ao vivo no Maracanã)"
[ Publicado por Rafael Paschoal ]
[28.9.09]
Doce não faz mal só para os dentes...
Ao contrário do que se pensa, Catherine não era uma criança esnobe. Nascida em berço de ouro, cercada de riqueza e ostentação, sempre fora uma menina espoleta, das que correm descalças pelo pátio de terra e ralam o joelho. Problema mesmo era com a avó Lucrecia, que fazia questão dos laçarotes de seda com renda e vestidos bem aprumados, sempre chamando atenção para os “modos”, que as meninas devem ter em qualquer ocasião.
Como seus pais estavam ocupados demais com os negócios da família, Catherine acabou desenvolvendo um carinho especial por Guaracy, sua governanta. As duas passavam boa parte do dia sozinhas, brincando de casinha. Apesar de sentir falta do carinho materno, a menina se divertia bastante com a criada, e era muito bem tratada. E foi justamente num domingo de Cosme e Damião que deu-se a tragédia.
Aproveitando que os patrões haviam saído para um brunch na praia de Santos, a governanta resolveu apresentar seu mundo à Catherine. Vestida com uma camisetinha sem mangas e shorts de flanela, a menina foi correr atrás de doces pelas ruas do subúrbio, onde Guaracy crescera, com muita humildade alegria. A bolsa a tiracolo ia crescendo à medida que ela se enturmava com o resto das crianças, e conseguia cada vez mais saquinhos recheados de guloseimas.
Cansada, mas feliz da vida, Catherine voltou dormindo no ônibus. Tomou banho de olhos fechados, e cai na cama, sem energia sequer para esperar os pais chegarem. Acordou no dia seguinte afobada para devorar seus doces. Correu para a cozinha e não encontrou ninguém. Foi até a sala, e nada. Segui na ponta dos pés até o quarto de Guaracy, mas a mulata havia partido. Com os olhos cheios de choro, deitou-se novamente e por lá ficou.
A pequena nunca soube o que realmente acontecera, mas Guaracy foi flagrada separando os de doces, na bancada da cozinha. Os seguranças a delataram. Sob tortura, depois de muito resistir, confessou que havia levado a menina para fora dos limites da mansão, e foi punida com o rigor de Dona Lucrecia. Arrancaram-lhe os olhos, as pernas e as vísceras. Sua carcaça foi jogada aos corvos e urubus. E os doces foram servidos em finíssimos cristais de murano, como se fossem especiarias para os convidados ilustres do casal.
Bonus track: Iggy Pop & Kate Pierson "Candy"
[ Publicado por Rafael Paschoal ]
[22.9.09]
Sexo é natural, sexo é divertido
- Rogério, tive um sonho erótico com você!
- Cruzes! Como é que foi isso, garota?
- Ah, sonhei que a gente tava numa piscina e... cê sabe!
- Transamos na piscina?!?
- Não! Foi um sonho erótico, não pornográfico!
- Ufa! Só de pensar já fico tenso! Você é minha amiga, Gleide...
- Pois é, você também é meu melhor amigo, mas tem um pinto... e eu tava pensan...
- Pode ir parando! Sei que você anda na secura, mas isso eu não faço!
- Isso o quê, Rogério?
- Nem adianta, que eu não vou te comer, Gleide! Assunto encerrado!
- Mas, Rô...
- Sem “mas”! Você é como uma irmã pra mim! O pinto nem ia subir...
- Pois é, no sonho também não queria subir, mas aí eu fui e...
- Chega! Não quero mais saber dessa história! Tá me dando aflição!
- Rô, vou começar a pensar que você é...
- Sou o que, Gleide? Você anda muito cheia de reticências!
- E você, pudico demais! Senão já teria me passado a...
- Sabia que eu já tive gonorréia? Peguei da Priscilla, aquela minha ex.
- ...
- ...
- Então, acho que vou convidar o Gláucio para dar uma volta.
- Vai ser ótimo. Ele é uma cara muito muito bacana.
Bonus track: George Michael "I Want Your Sex"
[ Publicado por Rafael Paschoal ]
[18.9.09]
Os amores de nossas vidas
Uma canção sofrida de Carly Simon tocava no rádio quando Orlinda acertou a cabeça de seu marido com uma panela de pressão, onde ainda havia um restinho da sopa de ervilhas que eles comeram no jantar. Sim, aquela foi uma noite romântica, em comemoração aos seus dez anos de casamento. A pancada, entretanto, foi tão inesperada que ele sequer teve tempo de reagir. Por alguns instantes, o corpo de Romualdo teve leves espasmos, até não restar mais nada. Sua algoz, petrificada, assistia a tudo com a arma do crime ainda em mãos, no que o refrão da música repentinamente chega ao climax. Só o sangue se movimentava, escorrendo pelas orelhas e narinas do pobre rapaz, deixando o tapete de fibras naturais tão vermelho quanto o amor que diziam sentir um pelo outro. As pupilas, agora dilatadas e estáticas, outrora só apontavam para ela: o ataque fatal apagou tudo. Maldita a hora em que ele resolveu criticar a permanente que ela fizera nos cabelos especialmente para aquela ocasião.
Bonus track: Carly Simon "Coming around again"
[ Publicado por Rafael Paschoal ]
[15.9.09]
Never felt this way before
Hoje, Marcela decidiu que não iria trabalhar. Depois de tomar uma xícara de café com pouco açucar, a moça escovou os dentes e vestiu-se toda de preto. Cheirou uma carreira de pó, tirou a vodka do freezer e trancou as portas. Com um gorro na cabeça, só os olhos de fora, ligou o ar-condicionado na potência máxima, envolveu-se nos edredons e acionou o dvd player. Assistiria Dirty Dancing, o dia inteiro, e bateria algumas siriricas em homenagem a Patrick Swayze, que fora a inspiração de seu primeiro e mais intenso orgasmo.
Bonus track: Bill Medley e Jennifer Warnes "The time of my life"
[ Publicado por Rafael Paschoal ]
[8.9.09]
Delírios de Rosália
Rosália era uma gordinha safada, que nos dias de chuva se divertia mostrando fartos seios a quem passasse pela rua. Tinha lá seus vinte e poucos anos, mas era como uma criança: boba até não poder mais. Dormia chupando o dedo, e de vez em quando até mijava na cama. Achava graça de tudo, mas se ouriçava toda era com uma boa sacanagem. Deixava-se relar por meninos imberbes, invariavelmente acometidos pelo priapismo juvenil e ejaculação precoce. Divertia-se como uma louca ao ser paparica em troca de sexo, e jamais recusava uma oportunidade de estremecer a terra com seus orgasmos retumbantes. Dentre os fornicadores, era tida como a melhor trepada do século, pois topava de um tudo e ainda pedia bis. Sua farra só acabou quando foi currada por nove estivadores fétidos e mal intencionados. Fizeram dela gato e sapato, e daquela noite em diante, enlouqueceu de vez. Ela foi vista remando em direção a Paquetá, mas por lá, jamais foi vista. É possível que tenha naufragado em seu próprio delírio, ou esteja à deriva, em direção à terras mais promissoras, onde poderá enfim se recuperar do baque orgiástico e começar uma nova vida, com a cintura mais acentuada e batom vermelho nos lábios.
[ Publicado por Rafael Paschoal ]
[26.8.09]
Tormenta
Virgilio acordou bem cedo, com o dia ainda escuro, e pensou seriamente em não sair da cama. Enquanto preparava a marmita, ia amaldiçoando seu patrão por tê-lo mudado para o turno da manhã, justamente na época do inverno. Uma garoa fina começou a cair quando ele trancava o portão, e só então lembrou que o guarda-chuva havia ficado lá dentro. Pegou o ônibus já cheio, mas achou um lugar no fundo, onde poderia respirar, se tivesse um pouco de sorte. Lá fora, a chuva foi aumentando, tal qual o vento. Os vidros embaçaram quando todas as janelas foram fechadas, e fez-se a sauna. Crianças chorando, homens tossindo e mulheres resmungando. O coletivo transformava-se, aos poucos, numa sucursal do inferno. O coitado suspirou, lembrando que poderia ter ficado em casa, ouvindo seus discos de Mercedes Sosa. Mas ele colecionava dívidas há um bom tempo, e esse era um luxo que não podia se dar. Pela janela, ele viu que a rua já havia se tornado um pequeno córrego. O trânsito foi ficando cada vez mais lento, até que parou. Os carros não andavam, e algumas pessoas começavam a subir em bancas de jornal. A água começou a invadir o ônibus, e alguns cachorros eram carregados pela correnteza. Minutos depois, alguns carros já estavam submersos e o pânico tomou conta de todos. As portas estavam emperradas e tudo aconteceu muito rápido. Estavam debaixo d’água, sufocando... e Virgílio deu pulo. Seu teclado estava ensopado de baba, o dono da empresa esperava explicações para aquela sonequinha no meio da tarde.
Bonus track: Mercedes Sosa "Alfonsina el Mar"
[ Publicado por Rafael Paschoal ]
[24.8.09]
Feliz Aniversário
Glória Rejane assoprou as velas que adornavam seu bolo de aniversário e fez um desejo. Ela era a típica garota de subúrbio, que escrevia em diário, comia batata-frita com ketchup e vivia sonhando com seu príncipe encantado, que a levaria para bem longe dali, onde os tiros das favelas não poderiam ser mais ouvidos. A guria também acreditava muito em simpatias, apesar de não ter religião. Acenderam as luzes e aplaudiram a aniversariante, que deu o primeiro pedaço para o pai, o segundo para a madrasta e guardou um terceiro, que mais tarde iria para dentro da fronha de seu travesseiro. Aquele iria trazer o amor de sua vida, ela tinha certeza. Acordou na manhã seguinte com a boca coberta de formigas. Tamanho desespero a fez pular da janela e cair no pátio do prédio, onde foi milagrosamente amparada pelo colo robusto de Sérgio Rogério, o novo vizinho do 405. Ele se apaixonou no mesmo momento, mas ela só descobriu o amor depois que seus lábios recuperaram a sensibilidade, pois o beijo em si era tudo oque ela sempre desejou, apesar do chiclete de canela que ele devia estar mascando há pelo menos quatro horas...
Bonus track: Kylie Minogue "In My Arms"
[ Publicado por Rafael Paschoal ]
[12.8.09]
Diário de uma mulher vingativa
Querido diário.
Hoje o Manel me bateu. E não foi uma tapa na cara, nem um soco na boca do estômago. Para minha surpresa, eu tomei uma vassourada na bunda, mesmo. Sem motivo aparente, ele se revoltou comigo e começou a me chamar de piranha imunda. No começo, eu até que gostei, achei excitante, pensei até que a gente iria fazer alguma sacanagem bem pervertida na cama. Engano meu, ele não queria meter em mim.
Na verdade, queria meter a porrada, mas eu não deixei. Saí correndo, que nem uma louca, quando ele me deu a primeira vassourada. O pior é que eu tinha acabado de passar henê nos cabelos, e a rua inteira me viu com o saco plástico de supermercado enfiado na cabeça. Foda-se todo mundo, quem manda no meu cu sou eu e ninguém tem nada com isso.
Fui correndo até a casa da minha irmã, que não podia saber da briga, senão teria um infarto. Fiz a boba, disse que tava com saudades, e pedi um copo de Coca-cola, com gelo e limão. A coitada trouxe rapidinho, e ainda me ofereceu um pouco do biscoito champanhe. Só deus sabe o quanto eu fico louca da bacurinha quando como esse biscoitinho, molhado na Coca-cola... puta-que-me-pariu!
Quando já tava bem tarde, voltei para casa, e o Manel tava deitado. Fui pro banheiro tirar o creme da cabeça, e liguei a televisão, para espairecer. Acabei dormindo no sofá, e só acordei de manhã cedo, com o filho-da-puta do meu marido pedindo para passar o café dele. Também não me fiz de rogada, mijei num copo de geléia e misturei na água fervendo. Tomara que ele sinta o gosto de mijo dormido e se lembre que não sou saco de pancadas. Ai dele se me bater de novo. Nem imagina o que eu posso fazer com um bolo de chocolate com recheio cremoso...
Rochelle.
Bonus track: Ana Carolina "Implicante"
[ Publicado por Rafael Paschoal ]
[7.8.09]
Do ralo pra panela
O maior problema de Dona Eneida era decidir o que fazer para o almoço. Macarronada? Omelete? Bife com batata-frita? Purê de berinjela? Salpicão? Todo dia era a mesma pendenga: perguntava ao marido, ao filho caçula, e até para a afilhada, que não tinha nada a ver com a história. Ninguém tinha sugestões, só queriam saber do prato quentinho sobre a mesa. Depois de tantos anos cozinhando, a cansada dona de casa já havia até perdido a vontade de comer. Só se alimentava porque era preciso, e nem ligava se o feijão estivesse aguado demais. Em alguns dias, inclusive, preferia mergulhar biscoito champanhe no café com leite a bater um prato de comida.
Era quase meio-dia e ela ainda estava lavando a louça do café da manhã, quando ouviu um barulho estranho na área de serviço. Logo de cara, pensou que fosse um rato. Correu até a despensa, mas não era de lá que vinha o ruído. Olhou nos cantos, procurou atrás da sapateira, e até debaixo dos armários, até ouvir novamente aquele som estranho! Havia algo dentro do ralo, arranhando a tampa, vindo do esgoto. Assustada, Dona Eneida chamou o marido e apontou para aquela coisa, que subia pela tubulação... Ele deu de ombros, dizendo que era a espuma da máquina de levar e, numa atitude tipicamente machista, virou as costas, deitando-se novamente no sofá, onde a garrafa de cerveja o esperava suadinha.
Acuada, ela não podia fazer nada além de temer o que sairia dali. Continuou na função doméstica, mas sempre de olho naquele canto. Preparou um almoço básico, para não ter como perder de vista a saída do ralo. Arroz, feijão e alguns ovos fritos: foi o que almoçaram, de bom grado e barriga cheia. Dona Eneida sequer colocou uma garfada na boca. Estava atenta ao que acontecia na área. Sua aflição começava a ganhar ares de paranóia, quando ela cogitou tratar-se de um jacaré vindo do esgoto. Estavam todos deixando a mesa quando ouviu-se um estalo. Era a tampa de aço que se soltara, revelando um par de garras alaranjadas, que escapavam da tubulação. Logo, o piso estava repleto delas...
Dona Eneida não conseguia acreditar, mas o ralo de sua área de serviço estava vertendo lagostas vivas e sadias. Nunca antes tinha visto uma de perto, e agora estava diante de uma verdadeira invasão. Rapidamente, ela colocou toda a família para catar os bichos, que iam sendo jogados em baldes, em bacias, no tanque e até na máquina de lavar. O gato se assustou e saiu correndo, enquanto o cachorro latia enlouquecido, para aqueles pequenos monstros que avançavam em sua direção. Como elas não paravam de sair do ralo, a solução foi prender a tampa novamente e veda-la. Ainda sem fôlego, a dona de casa olhou ao seu redor e levou as mãos aos céus. Sua vontade de cozinhar havia voltado! Naquela noite, jantariam lagostas cozidas com batatas amassadas, até não agüentarem mais.
Ela sabia que custava uma verdadeira fortuna comer lagostas num restaurante medianamente sofisticado, e por isso tratou de pedir ao filho que procurasse receitas requintadas na internet. Temente a deus, ela tinha certeza de que aquele acontecimento era uma intervenção divina, e tratou de fazer bom uso dos bichos, com o todo respeito que tratava uma galinha, que mais tarde se tornaria uma canja. Como seu ralo não parava de produzir aquela distinta iguaria, Dona Eneida decidiu popularizar a lagosta. No dia seguinte, pendurou uma placa no portão e ofereceu pratos finos a preços módicos para a comunidade. E quem completasse a cartelinha com cinco selos, ainda podia levar uma garrafa de sidra. Ela só não fornecia as taças, porque aí já seria muito abuso.
Bonus track: The B-52's "Rock Lobster"
[ Publicado por Rafael Paschoal ]
[31.7.09]
Até quando ainda houver sol
Caiu a tarde e a situação permanecia inalterada. Sem internet, sem telefone, sem energia elétrica, sem carros, sem comunicação, sem nada... Tudo parou de funcionar, como que num efeito dominó ou passe de mágica. O céu alaranjado foi torna-se escuro, ninguém tinha notícias do que acontecia além de seus próprios quarteirões, e um medo quase desesperador começou a rondar a vizinhança. O que teria causado aquele blecaute total? Porque é que nada funcionava? Até quando duraria aquele tormento?
Gabrielle estava com calor e, numa tentativa de não se esvair em suor, seguiu para o quintal, onde deitou-se na grama e ficou observando as estrelas. Nunca havia imaginado que poderia ver tantas constelações a olho nu. Em alguns momentos, poderia jurar que o céu se movimentava como um tecido bordado em lantejoulas. Estava tão fascinada com aquele cenário, que até esqueceu da situação calamitosa pela qual estavam passando. Ficou lá, quieta, imóvel, enrolando a ponta dos cabelos cacheados entre os dedos, sozinha com os grilos, que agora eram os substitutos mais próximos de seu mp3 player...
Dona Glicéria, que passou quase toda sua vida sem tais modernidades, armou sua cadeira de praia sob a amendoeira. Com um leque em punho, refrescava-se calmamente, enquanto tudo ao seu redor parecia desmoronar. Havia acompanhado o por-do-sol pela janela da sala, saboreando um bolo de laranja. Só lamentava pela torta salgada que estava na geladeira, que havia sido especialmente preparada para a reunião dos paroquianos. Fora isso, dormiria com as janelas abertas, pois a tela de náilon impediria a entrada dos pernilongos. Nada mais a preocupava.
Silvia e Rogério estavam apaixonados, e por isso nem sofreram com o baque do apagão. Ficaram namorando, deitados na rede da varanda, na esperança de que tudo aquilo se normalizasse. Conversavam em sussurros, planejando um futuro colorido e com fogos de artifício. Seus beijos quase os alimentava. A vida a dois era tão mais confortável, que passariam o resto da existência se abraçando. Conseguiam entreter-se apenas com os seus próprios olhares, e o tempo que se passou não contava para eles.
Eles ainda não sabiam, mas o mundo ao seu redor havia deixado de existir. Os cachorros não paravam de latir, e uma revoada de andorinhas passou em direção ao bosque que ficava algumas quadras depois do shopping. Algumas pessoas passaram a noite em branco, jogando conversa fora. Outras, mais apavoradas, rezavam pela intervenção divina. Era apenas uma questão de tempo até que suas histórias também chegassem ao fim.
Bonus track: Creed "What If ?"
[ Publicado por Rafael Paschoal ]
[8.7.09]
Antes que seja tarde
“Essa vai pros corações solitários” sussurrou Isis no microfone, enquanto esticava o braço para alcançar seu acordeom. Usava tranças nos cabelos e as unhas eram pintadas com pequenas flores brancas. Tinha saído de Campo Grande com a tarde ainda clara e seguiu de trem até o Centro, onde pegou um táxi para Copacabana. O bom de ter chegado cedo é que poderia arrumar suas coisas com calma e deixar o palco do jeitinho que gostava. No camarim, passou cajal nos olhos, um batom levemente dourado e três borrifadas de perfume, porque nada é mais importante do que estar cheirosa. Tomou algumas caipirinhas, já nem contava mais, antes do bar encher. Esta noite, faria um especial só de canções para que sofre com os sintomas da saudade.
“Ainda penso em você, a cada manhã e cada beijo que não demos” foi o que escreveu Dado num torpedo para sua ex-namorada. Estavam separados há dois anos, mas ele não conseguia superar a distância. Até havia tentado se envolver com outras pessoas, mas o coração tem vontade própria. Nada que tivesse de novo poderia se comparar, de forma alguma, com o que tiveram. Ele ainda nutria esperanças de que, com um boa dose de tempo e saudade, ela o aceitaria de volta. Beijou a foto que ainda ilustrava sua mesa de cabeceira, com a devoção que se deve a uma santa. Suspirou, com ares de quem estivesse apaixonado e apagou a luz do quarto. Saiu do Méier pouco antes das dez, pois ainda pegaria dois amigos antes de seguir para o bar.
“Se dormir antes de eu chegar, saiba que te amo” rascunhou Janalenne num pedaço de papel de pão, que prendeu na geladeira com um ímã dos de farmácia. Vivia sozinha com a filha, numa favela de Cascadura. Mal conseguiam se ver, por conta dos horários discrepantes na luta diária pela sobrevivência. Havia largado o cigarro, e isso a deixava um pouco ansiosa. Enquanto descia o morro, ajeitou a marmita dentro da bolsa, para que não sujasse o casaco. Iria cobrir sua irmã no balcão do bar, pois estava juntando dinheiro para mandar uma ajuda ao resto da família, que havia ficado no interior da Bahia.
“E por hoje é só” disse Everaldo, agradecendo a presença de todos. Já passava de três horas da manhã, e os clientes ainda estavam animadíssimos. Tudo o que ela queria era fechar aquelas portas e deitar ao lado de Analice, sua esposa. Mas desde que comprara o bar, por mais que estivesse sempre lotado e cercado de pessoas de boa índole, o peito ardia em angústia. Tudo o que ele realmente queria era continuar com a barraca de frutas nas feiras-livres que circulam pelos subúrbios. Acordava cedo, sim, mas tinha todo o tempo do mundo para curtir a família e não sofrer com a maldita saudade.
Bonus track: Pato Fu "Antes Que Seja Tarde"
[ Publicado por Rafael Paschoal ]
[4.7.09]
Sob pressão!
Com a proximidade de seu casamento, Selma começou a sentir a desagradável presença de um fantasma que só costuma assombrar a vida dos homens... Ela temia que sua libido, reprimida e carregada de culpa, a deixasse na mão justamente na noite de núpcias. Tinha medo de broxar e, por conseguinte, amaldiçoar seu futuro conjugal. Foram oito anos de espera, onde Ricardo precisou fazer esforços mais do que heróicos para não se entregar às tentações mundanas, atendo-se somente ao que estava no alcance de suas próprias mãos.
Como não era mulher de se deixar abater por bobagens como essa, a futura noiva ligou para Tânia, sua melhor amiga e rainha das mandingas. Um pouco embaraçada, revelou suas angústias e pediu uma solução rápida, prática e simples, que não precisasse de mundos ou fundos para dar certo. Selma queria ser a mulher mais sensual que Ricarso já pusera os olhos. Queria fazer daquela, a primeira das infindáveis noites de prazer que teriam juntos, por todo o resto de suas vidas.
Na véspera do casório, seguindo as instruções rascunhadas numa caixa engordurada de comida chinesa, Selma preparou a poção afrodisíaca. Segundo sua amiga, o sumo de uma bergamota madura deveria ser misturado a duas cabeças de alho, socadas em açúcar mascavo, para então dormir sob o sereno e a luz da lua, numa cumbuca branca de porcelana. Nada tão pavoroso, quanto enterrar uma garrafada com filhotes de rato albino para curar calvície.
Chegado o grande dia, a noiva acordou antes dos galos e recolheu o caldo mágico, que foi reservado então numa pequena garrafa de aço inoxidável, escondida no fundo de sua mala. Depois de almoçar pela última vez como solteira, Selma seguiu para o hotel, onde teria uma tarde inteira de relaxamento, banhos com florais e toda a produção que requer um evento como aquele. Ao cair da noite, estava deslumbrante, com um brilho no olhar que chegava a cintilar mais que as estrelas.
A cerimônia correu como o esperado, e a festa foi um desbunde. Todos se fartaram de tanto beber e comemorar, e o casal sorria como se não houvesse fome na África e nem gente aleijada pelo mundo. Sem dar muita bandeira, fugiram escondidos pelo jardim, rumo a tão sonhada lua de mel. Como o vôo só iria partir ao amanhecer, seguiram para um luxuoso flat emprestado pelo chefe de Ricardo. Selma, já ansiosa com o que estava por vir, aproveitou uma distração do marido para beber o sumo do amor.
Estavam, enfim, a sós. Pela primeira vez, depois de tantos anos, entregaram-se ao prazer das próprias carnes, que não de num rodízio esfumaçado. Beijaram-se, despiram-se e quase perderam os sentidos de tanta aflição. Selma começou a sentir algo crescendo dentro de si, e ainda não era a virilidade de Ricardo. Um fogo ardia entre suas pernas. Estava se sentindo, pela primeira vez, como uma fêmea no cio. Tamanho era seu tesão, não sabia se aquilo era um orgasmo, ou combustão espontânea. Explodiam bombas dentro de seu corpo, ininterruptamente.
Amedrontada, a moça correu para o banheiro, onde não conseguia mais parar de mijar. Talvez, se tivesse seguido rigorosamente as instruções de beber somente um gole daquele licor, não estaria sofrendo com aqueles fortíssimos espasmos vaginais. Sem saber o que fazer, ela pediu para que o marido a deixasse a sós, pois não queria deixa-lo ver seu sofrimento. Como ela não conseguia descolar o traseiro da privada e urrava de dor, Ricardo reagiu por instinto. Com um balde cheio de gelo, tentou refrescar sua esposa, mas a cena que vi a seguir foi por demais grotesca.
Como uma boneca de cera, Selma começou a dissolver na frente do marido. Seus olhos saltaram das órbitas, enquanto a pele escorria para o chão, totalmente liquefeita. Sua agonia era tanta, que aos poucos ela foi perdendo os sentidos, esvaindo-se para dentro do ralo. Em poucos segundos, seus gritos já não eram mais ouvidos, e Ricardo assistia atônito àquele show de horrores. Já não estava mais nada de Selma, a não ser uma gosma pulsante e disforme. O viúvo, em choque, puxou a descarga e ligou a tv. Nunca imaginou que seria tão amaldiçoado por ter se permitido aliviar a pressão nos braços de Tânia, na véspera do casório...
Bonus track: David Bowie & Annie Lenox "Under Pressure"
[ Publicado por Rafael Paschoal ]
[24.6.09]
Tantas vezes eu soltei foguete...
O combinado era que os meninos levariam refrigerantes, enquanto as meninas ficariam encarregadas dos quitutes. A fogueira já estava queimando quando Julia chegou com o prato de cocadas brancas. Vestido de chita estampado em vermelho vivo, meia calça branca e chiquinhas em botão no cabelo cacheado, era a caipira mais bonita da rua. Ela cintilava, com seu sorriso tímido ( e ao mesmo tempo sapeca ). Foi eleita a noivinha da festa, e ganhou o direito de brincar três vezes seguidas na pescaria. Provou do quentão, dançou forró com seu primo e soltou estalinho com as crianças. Sentada num tronco, enquanto descansava as pernas, olhou para o céu e avistou tantos balões que chegou a ficar zonza. Estava feliz da vida, pois adorava festa da São João. Com Augusto, soltou rojão, foguete e buscapé. O cheiro de pólvora queimada, as bandeirinhas coloridas meneando com o vento, a canjica fervendo, o cheio da batata-doce sob a brasa... Tantas sensações, tantas lembranças da infância que se foi. Só faltava passar na barraca do beijo, pra completar a noite. Lá estava Pedro Augusto, seu muso desde os tempos de colegial. Quanta alegria! Quanta aflição até encostar seus lábios nos dele! Tanta era sua euforia, que pulou fogueira, dançou mais uma quadrilha e voltou pra casa sorrindo como criança inocente. Ah, que saudades do tempo em que se podia comer paçoca, milho cozido, pé-de-moleque e doce de abóbora sem culpa, sem medo de engordar. Só não dormiu tão bem porque quem fica muito perto do fogo acaba mijando na cama. Mas foi só virar o colchão que estava tudo resolvido.
Bonus track: Maria Bethânia "Foguete"
[ Publicado por Rafael Paschoal ]
[22.6.09]
Quase no picadeiro
Foram cinco anos de muita ralação, onde esforços sobre-humanos, dezenas de noites em claro e relações pessoais estremecidas culminaram na sua colação de grau. Glécia não podia acreditar que, depois de tantos apertos e uma caderneta de poupança zerada, finalmente poderia exercer a profissão de jornalista, almejada desde a mais tenra infância, por influência de Lois Lane e seus cabelos esvoaçantes.
De tão empenhada, alguns anos mais tarde, conseguiu uma indicação para trabalhar como editora de um telejornal. Estava bem perto de atingir seu próximo sonho na escala evolutiva: dirigir uma equipe talentosa e levar ao mundo a informação nua e crua, sem maquiagem e sem exageros apelativos. Glécia queria ser referência, queria ser lembrada daqui a cinqüenta anos por seus incríveis feitos e dedicação total à verdade. Mas um balde d’água desmanchou suas mechas em escova egípcia.
Ao chegar à redação, nesta última sexta-feira, ela se deparou com uma boneca gigante, andando de um lado para o outro, falando como uma maritaca no cio, dando ordens a torto e a direito. Sem entender o motivo do furdunço, foi entrando sorrateira. A loira, de botas brancas e batom rosa, sorriu e apresentou-se como a nova editora-chefe. Não por menos, era afilhada de uns dos diretores da emissora e, como diploma não era mais problema, achou que já estava na hora de fazer seu debut.
Atordoada, Glécia trancou-se em sua sala e chorou. Caiu no pranto como uma criança perdida no supermercado, chegou a soluçar de tanta raiva. Ficou imaginando a cena onde aquela criatura enorme e rotunda, bêbada num almoço de Natal, revelava seus anseios de lidar com jornalismo, notícias e fofocas... E o padrinho tarado, com suas pelancas e rugas de sobra, emocionado de tanto prosecco, oferecia uma vaga de alta responsabilidade, no intuito de impressionar a família e, quem sabe, se fartar naquelas carnes.
Sem mais o que esperar, Glécia juntou seus trapos, esvaziou as gavetas, despediu-se do porteiro e ganhou a rua. Não quis lutar contra a afilhada, não pediu demissão e não deu mais notícias. Resistiu aos impulsos que a diziam para enfiar a caneta tinteiro no pescoço da maldita e seguiu pra rodoviária, onde tomou o primeiro ônibus que tinha lugar vago e ar-condicionado. Foi embora para Araçatuba do Norte, onde arrumou um bico num circo mambembe. Pelo menos assim, e só assim, ela saberia que de palhaça só tinha a cara.
Bonus track: KoRn "Clown"
[ Publicado por Rafael Paschoal ]
[16.6.09]
A falta que você me faz
Ontem à noite, Maria Cristina estava impossível. Chegou do colégio eufórica, com uma energia própria de criança que começa a desvendar o seu lugar no mundo. Corria pela casa, agitadíssima, contando as novidades que permeavam seus pensamentos mais festivos. Eu, na medida do possível, tentava prestar atenção, enquanto organizava a papelada daquele processo que vem, aos poucos, me tirando a lucidez.
Passado algum tempo, a menina foi se acalmando, e eu pude me concentrar melhor. Sozinha, Maria Cristina colocou um disco para tocar, e pegou um pacote de rosquinhas com leite. Ela adorava sentar-se com o pai no chão da sala, onde devoravam guloseimas enquanto ouviam canções antigas. Talvez ela esteja aprendendo a superar sua ausência, não sei ao certo. Agora compreendo, e sinto, a falta que ele nos faz.
Lá pelas tantas, ela largou tudo para vir me abraçar, sem soltar um pio. Senti seu coraçãozinho batendo retumbante, estava emocionada. Com um sorriso inimitável estampado no rosto, me chamou para "brincar de sonhar". Perguntei se já estava com sono, afinal eram quase dez horas. Mas não. Ela queria mesmo que eu fosse para o quarto, onde sonharíamos acordadas até não mais poder. Tentei negociar, mas não tive sucesso. Só pedi alguns segundos para guardar as pastas em minha bolsa, e lá estava ela, aflita, já vestindo seu pijama de flanela.
Assim que entrei no quarto, ela me perguntou o que eu faria se nossa casa amanhecesse repleta de cãezinhos. E daí começou a tagarelar, imaginando-os rolando pelo carpete, latindo e rosnando para nosso gato rajado, que já idoso, não suportaria tamanho furdunço. Depois, ela imaginou um enorme chafariz de chocolate no jardim, onde passaríamos horas nos lambuzando. Com os olhos fechados, Maria Cristina lambia os dedos e batia as pernas, como quem estivesse mesmo deliciando-se com tudo aquilo.
Do nada, ela me questionou se não estava achando graça na brincadeira. Afinal, se fosse para brincar sozinha, conversaria com suas bonecas. Pode ser que a pequena tenha notado meu distanciamento, atendo-me só a ouvir suas mirabolantes viagens... A verdade é que não conseguia parar de pensar em Ernesto, depois de vê-la sentada com os biscoitos. Aquele hábito era tão deles, e só de me lembrar de toda a rispidez que nos envolveu até a última vez que nos falamos... acabei desmoronando.
Ao notar minha tristeza, Maria Cristina teve a sagacidade de não se deixar levar pela maré, e me perguntou se também sonhara com ele, seu pai, à beira da tal fonte. Eu respondi que sim, com a cabeça, e ela contou que ele estava vestido de branco, todo sujo de chocolate. Justamente o que ele foi comprar naquela noite, quando ensaiava um pedido de desculpas. Mas era eu quem devia ter de me perdoar. Por tê-lo forçado a sentir-se culpado. Por tê-lo feito sair e não mais voltar. Por ter causado em minha filha uma falta que jamais poderá ser substituída...
Com inumeráveis e indescritíveis sensações correndo pelo meu corpo, resolvi cair de cabeça naquele jogo. Sonhei que nós três vivíamos numa colina forrada de margaridas e arbustos, com cães, gatos e renas vivendo livres e dóceis. Tínhamos um poço, de onde era possível puxar baldes e mais baldes de morangos, e uma amendoeira gigante fazendo sombra no gramado. Não precisávamos de dinheiro, nem de televisão, e ao entardecer, ganhávamos asas, para voarmos sobre um lago tão azul quanto céu.
Maria Cristina me interrompeu, bruscamente, dizendo que eu passara dos limites. Ela até compreende que eu sonhe em voar, mas viver sem televisão seria imperdoável. A pequena cruzou os braços e fez bico, afirmando com veemência que a brincadeira havia acabado. Quem diria... tão pequena e já estava viciada na mídia do escândalo. Sem potencializar o assunto, voltei a falar de Ernesto... depois de muito custo, um sorriso brotou novamente em seu rostinho angelical. E então mergulhamos os três, novamente, naquele mar de chocolate, até adormecermos e sonharmos, de fato, com uma vida que infelizmente não voltaremos a ter.
Bonus track: Greg Laswell "Girls Just Wanna Have Fun"
[ Publicado por Rafael Paschoal ]
[14.6.09]
Do amor instantâneo
Dia dos namorados é uma data cruel. Muitos dizem que é uma invenção do comércio para vender mais, e não dão a mínima para essa bobagem. Já quem se importa, e não tem um cobertor de orelha a seu dispor, acaba curtindo a tremenda dor de cotovelo que é ver os casais apaixonados passeando de mãos dadas pelo shopping. Existem aqueles que fazem como Marlom, que se jogou na balada em busca de uma garota que o quisesse tirar daquele sufoco. Solteiro desde sempre, ele já não agüentava mais ter que dar de ombros e fazer muxoxo quando suas tias suadas perguntavam pela “esposa” e se haveria, afinal, um casamento.
Depois de fumar quase todo o maço de Guddang black, debruçado sobre o peitoril da janela de seu quarto, Marlom pegou o carro e foi direto para o bar mais fervido do bairro. Colocou para tocar o novo cd do Black Eyed Peas, que havia baixado há pouco, já para chegar em ponto de bala. Não queria ir pra muito longe, pois naquela noite iria enfiar o pé na jaca, e se tudo desse errado, pelo menos não levaria séculos até voltar para casa. Estacionou numa viela, deu uns tragos no último cigarro e já chegou no bar com a sede inflamável de beijar lábios carnudos. Olhou para um lado, para o outro, fez um pouco de pose... Nenhuma das garotas, entretanto, mostrou interesse em retribuir seus charmes. Sem graça, ele achou melhor mudar de estratégia.
Parado num canto, bebendo seu mojito, ele notou que alguém o observava. Como o bar estava escuro demais, tentou chegar mais perto da pista, para ver se identificava a menina. Deu mais alguns passos em sua direção e percebeu que ela estava com um riso frouxo, quase debochado. Demasiadamente paranóico, já ficou imaginando todos os motivos mais esdrúxulos para que ela estivesse achando tanta graça. Se houvesse bebido um pouco mais, era bem capaz de enfiar-lhe um tapa na cara. Quando chegou bem perto, sem pensar duas vezes, foi logo gritando com a mocinha, como se fosse um esquizofrênico. “Eu tenho amigos, tá?! Eu não vim sozinho! Eles só não chegaram ainda, mas já estão vindo! Não precisa tirar sarro da minha cara pois eu não sou patético o suficiente para sair de noitada sozinho!!!”
Com a mão tapando o sorriso largo, e os olhos arregalados, ela revelou que, na verdade, tinha o achado muito gracinha, e que estava justamente pensando num jeito de chegar junto, sem parecer vulgar ou oferecida demais... Sequer houve tempo para que se apresentassem direito. Marlom a agarrou pelo pescoço e então deram um beijo digno de cinema, com direito a perder o fôlego e ficar com um leve rubor nas bochechas. Enquanto se recompunham, ela revelou que seu nome era Juanita, e que também estava em busca de algo. Ficaram horas se acariciando, descobrindo detalhes apaixonantes sobre suas vidas e, como num passe de novela, talvez influenciados pelo desespero que a data causava, condenaram-se ao namoro. Ali mesmo, em meio aos drinks mal feitos e a fumaça que deixaria suas roupas fedendo no dia seguinte...
Bonus track: Black Eyed Peas - "I Gotta Feeling"
[ Publicado por Rafael Paschoal ]
[9.6.09]
Diário de um suicida
Querido diário...
Hoje eu resolvi me matar. Mas como não tenho nenhum amigo, nem parentes próximos, cabe a você comunicar a todos que minha vida foi uma merda. Quero que saiba, acima de tudo, que essa cambada de filhos-da-puta é culpada por minha miséria. Me largaram sozinho, comendo sardinha com maionese estragada, aqui em Itaguaí. Agora vão se fuder, todos eles. Fui numa funerária e encomendei tudo que eles tinham de mais caro, com direito a caixão revestido de veludo e o caralho. Como o defunto não pode assinar cheque, dei o nome de quem mais me fodeu para pagar a conta, minha mãe. A piranha não me liga há três anos.
Quanto ao método que escolhi para dar fim aos meus dias, não foi difícil. Decidi tomar chumbinho, aquele veneno que mata rato, e qualquer camelô vende, debaixo dos viadutos. Comprei dois potes, e vou misturar com as sardinhas, logo mais.
E para não dizerem no meu enterro que só fui um estorvo, deixo para meu irmão mais novo, o Kaikinho, minha coleção da revista Playboy. Ele está com treze anos, vai fazer bom uso delas.
Só para terminar, gostaria de deixar bem claro que nunca fui a favor da guerra no golfo, nunca debochei do Papa, nunca ri da cara da Ruth Lemos, tampouco chamei o Jô Soares de otário. Admito ter feito piada com a morte da filha da Glória Perez, mas isso todo mundo fez. E como todo homem que honra seus próprios colhões, juro que nunca mais vou escrever diário na minha vida... Literalmente.
Com rancor,
Cleverson
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[ Publicado por Rafael Paschoal ]
[5.6.09]
Germano turbinado
Germano estava almoçando quando teve um súbito mal estar e desmaiou sobre o prato de acelga ao alho e óleo com molho de tomates-cereja. Ao se refazer do susto, ainda com o rosto sujo de azeite, ele teve uma epifania. Depois de anos sentindo-se culpado por não dar vazão aos seus desejos conflituosos, iria colocar peitinhos de silicone e assumir sua maior tara. Procurou uma clínica de estética, expôs sua vontade e jogou um maço de dinheiro sobre a mesa. Na semana seguinte já estava turbinado, exibindo aos quatro ventos seus novos amigos. Passava horas se namorando de frente ao espelho, passando os dedos ao redor dos mamilos, delirando com a sensação de ter um belo par de melões. Não que ele esperasse que alguém ficasse excitado com aquilo, mas o prazer de bater punheta para o resto da vida olhando para os próprios seios era o bastante para que finalmente atingisse o nirvana...
[ Publicado por Rafael Paschoal ]
[3.6.09]
Um papo entre amigas [ sobre preferências ]
- O Renato me convidou pra jantar hoje.
- Sério, Jéssica? Aquele gato da expedição?!
- O danado! E ainda veio com a camisa aberta!
- Ele adora exibir os pelinhos do peito, né?
- Só pra me deixar ainda mais aflita...
- E aí, você vai aceitar?
- Claro, Cleidiane! Combinamos um rodízio, ali na Vila da Penha.
- Ah... rodízio?! Isso é coisa de pobre!
- E eu, por acaso, sou rica?
- Não, mas podia marcar naquele japonês, perto do shopping...
- É... lá é mega romântico, mesmo.
- Hmmm... Já tá nessa vibe, Jéssica?
- Não é isso... mas vai que ele está afim de me dar uns beijos...
- Então beija logo! Nem janta, corre logo pro motel!
- Não. Motel só depois de uns três encontros.
- Daí ele cata outra que não regula tanto a passarinha e...
- Azar o dele! Não saio dando assim, tão fácil, Cleidiane!
- Isso foi uma indireta?
- Hein?
- Estou perguntando se isso foi uma indireta, Jéssica!
- Não... mas você, hein? Vive na paranóia!
- Sei lá... Vai ver, você não aprova meu estilo de vida.
- Não tenho nada contra... cada um com o seu!
- Tá, vou acreditar! Se fazendo de cocota, toda apaixonadinha...
- Ih, olha o chilique! Tá espinhosa porque?
- Então, é que eu andei pensando... não, esquece!
- Agora conta! Vai, solta logo!
- É que eu, sei lá... tô assim...
- Conta, Cleidiane... O que foi?
- Eu to fazendo análise...
- Sério? Tá acontecendo alguma coisa, amiga?
- Tipo, você não conta pra ninguém o que eu vou dizer aqui...
- Aham... claro!
- Eu to saindo com uma garota. Mas tá foda!
- Peraí! Você tá ficando com mulher, Cleidiane?!?
- Isso, grita mais alto que até o encarregado vai ficar sabendo, sua vaca...
- Mas você gosta tanto de homem, porque agora...
- Porque deu vontade! Pronto, foi isso!
- E você já olhou pra mim com... sei lá, esse tipo de...
- Já, várias vezes! Mas relaxa...
- Não, tá tranqüilo. Conta mais.
- Ah, eu meio que acho uma gracinha quando você ajeita o cabelo atrás da orelha...
- É... tenho essa mania, desde criança.
- E aquela sua blusinha com estampa de gatinho... fica bem legal.
- Ai, to sem graça... mas, assim... fico lisonjeada!
- Vamos naquele rodízio, depois do trabalho? Eu pago!
- Legal. Deixa só eu avisar pro Renato que eu tô de chico... sabe como é...
[ Publicado por Rafael Paschoal ]
[28.5.09]
O valor de cada um
Acordar às quatro da madrugada não era problema para Dona Celina. Pegar um ônibus em Austin para estar em Copacabana ao clarear do dia já havia se tornado um hábito. Ela adorava trabalhar para a família Vianna pois sentia-se valorizada e respeitada. Estava sempre com um sorriso no rosto, mesmo que tivesse desentupindo a fossa da cozinha. Os cães eram adoráveis, e as crianças muito respeitadoras. Seus pratos eram deliciosos, com aquele gostinho de tempero da roça, e muito elogiados nas festas. Mas, num sábado, tudo isso chegou ao fim. Ela caiu do oitavo andar, enquanto limpava as janelas. Apavorada com o acontecido, sua patroa ficou inconsolável. Quem, afinal, iria preparar o jantar naquela noite?
[ Publicado por Rafael Paschoal ]
[19.5.09]
Não sobrou nada?
Quando ela ergueu seu rosto, as lágrimas despencaram. Segurava os dedos com força, esmagando-os uns contra os outros. Sua respiração ofegante crescia em direção ao sufocamento. Já não havia mais tempo para dizer o quanto se arrependera, não havia mais tempo para lutar pelo que perdeu. Tanto orgulho a impediu de dizer as três palavras que quase lhe escapavam pela boca afora, naqueles últimos meses. Três palavras que poderiam ter mudado o rumo de toda sua vida, se tivessem ao menos sido proferidas. Estava tudo acabado. Seu mundo ruíra, e aquela música não parava de tocar em seus pensamentos. Ela chorava em silêncio, desamparada, enquanto a tarde caia lá fora, e até as folhas das arvores iam embora com o vento. Não havia mais nada, além da dor. Nada além do céu alaranjado, e do frio. Porque era tão difícil sentir aquelas três palavras?
Bonus track: Greg Laswell - "Off I Go"
[ Publicado por Rafael Paschoal ]
[13.5.09]
O triste fim do gato rajado
Tinha um gato morto na caixa d’água. Mas ninguém sabia. Todos reclamavam da fedentina que tomou conta do quintal, mas não suspeitavam de que, lá dentro, o bichano estava em decomposição. Procuraram em todos os cantos, mas não descobriram de onde vinha aquele cheiro horrível de coisa podre. E daí começaram as acusações. A troca de farpas. Os insultos. Cada um com o seu cada um. Só que ninguém arredou pé. Criticaram-se, xingaram-se, violentaram-se, mas não descobriram o corpo do bicho boiando na água. A velha surda só gritava coisas aleatórias, a loira manca apontava pra vizinha de cima, e esta dava de ombros, como quem não tivesse nada a ver com o furdunço. Os dedos apontavam para tudo que é lado, mas não era de ninguém a culpa pelo fedor. Só do gato. Que foi curioso e caiu na água. Ele morreu afogado, porque não sabia nadar. E lá estava: inchado, verde, despedaçando-se. Ele só queria ser acariciado. Ele só sabia ser pajeado. Mas ninguém vive de elogios e afagos. Foram semanas até que o encontrassem, mas aí já não tinha mais jeito. Haviam bebido daquela água e, agora, cada um carregava dentro si um pouco do bichano. Finalmente ele conseguiu o que tanto queria. Ser de todos. E não ser mais nada...
[ Publicado por Rafael Paschoal ]
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