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[24.6.09]
Tantas vezes eu soltei foguete...
O combinado era que os meninos levariam refrigerantes, enquanto as meninas ficariam encarregadas dos quitutes. A fogueira já estava queimando quando Julia chegou com o prato de cocadas brancas. Vestido de chita estampado em vermelho vivo, meia calça branca e chiquinhas em botão no cabelo cacheado, era a caipira mais bonita da rua. Ela cintilava, com seu sorriso tímido ( e ao mesmo tempo sapeca ). Foi eleita a noivinha da festa, e ganhou o direito de brincar três vezes seguidas na pescaria. Provou do quentão, dançou forró com seu primo e soltou estalinho com as crianças. Sentada num tronco, enquanto descansava as pernas, olhou para o céu e avistou tantos balões que chegou a ficar zonza. Estava feliz da vida, pois adorava festa da São João. Com Augusto, soltou rojão, foguete e buscapé. O cheiro de pólvora queimada, as bandeirinhas coloridas meneando com o vento, a canjica fervendo, o cheio da batata-doce sob a brasa... Tantas sensações, tantas lembranças da infância que se foi. Só faltava passar na barraca do beijo, pra completar a noite. Lá estava Pedro Augusto, seu muso desde os tempos de colegial. Quanta alegria! Quanta aflição até encostar seus lábios nos dele! Tanta era sua euforia, que pulou fogueira, dançou mais uma quadrilha e voltou pra casa sorrindo como criança inocente. Ah, que saudades do tempo em que se podia comer paçoca, milho cozido, pé-de-moleque e doce de abóbora sem culpa, sem medo de engordar. Só não dormiu tão bem porque quem fica muito perto do fogo acaba mijando na cama. Mas foi só virar o colchão que estava tudo resolvido.

Bonus track: Maria Bethânia "Foguete"


[ Publicado por Rafael Paschoal ]
[22.6.09]
Quase no picadeiro
Foram cinco anos de muita ralação, onde esforços sobre-humanos, dezenas de noites em claro e relações pessoais estremecidas culminaram na sua colação de grau. Glécia não podia acreditar que, depois de tantos apertos e uma caderneta de poupança zerada, finalmente poderia exercer a profissão de jornalista, almejada desde a mais tenra infância, por influência de Lois Lane e seus cabelos esvoaçantes.

De tão empenhada, alguns anos mais tarde, conseguiu uma indicação para trabalhar como editora de um telejornal. Estava bem perto de atingir seu próximo sonho na escala evolutiva: dirigir uma equipe talentosa e levar ao mundo a informação nua e crua, sem maquiagem e sem exageros apelativos. Glécia queria ser referência, queria ser lembrada daqui a cinqüenta anos por seus incríveis feitos e dedicação total à verdade. Mas um balde d’água desmanchou suas mechas em escova egípcia.

Ao chegar à redação, nesta última sexta-feira, ela se deparou com uma boneca gigante, andando de um lado para o outro, falando como uma maritaca no cio, dando ordens a torto e a direito. Sem entender o motivo do furdunço, foi entrando sorrateira. A loira, de botas brancas e batom rosa, sorriu e apresentou-se como a nova editora-chefe. Não por menos, era afilhada de uns dos diretores da emissora e, como diploma não era mais problema, achou que já estava na hora de fazer seu debut.

Atordoada, Glécia trancou-se em sua sala e chorou. Caiu no pranto como uma criança perdida no supermercado, chegou a soluçar de tanta raiva. Ficou imaginando a cena onde aquela criatura enorme e rotunda, bêbada num almoço de Natal, revelava seus anseios de lidar com jornalismo, notícias e fofocas... E o padrinho tarado, com suas pelancas e rugas de sobra, emocionado de tanto prosecco, oferecia uma vaga de alta responsabilidade, no intuito de impressionar a família e, quem sabe, se fartar naquelas carnes.

Sem mais o que esperar, Glécia juntou seus trapos, esvaziou as gavetas, despediu-se do porteiro e ganhou a rua. Não quis lutar contra a afilhada, não pediu demissão e não deu mais notícias. Resistiu aos impulsos que a diziam para enfiar a caneta tinteiro no pescoço da maldita e seguiu pra rodoviária, onde tomou o primeiro ônibus que tinha lugar vago e ar-condicionado. Foi embora para Araçatuba do Norte, onde arrumou um bico num circo mambembe. Pelo menos assim, e só assim, ela saberia que de palhaça só tinha a cara.


Bonus track: KoRn "Clown"

[ Publicado por Rafael Paschoal ]
[16.6.09]
A falta que você me faz
Ontem à noite, Maria Cristina estava impossível. Chegou do colégio eufórica, com uma energia própria de criança que começa a desvendar o seu lugar no mundo. Corria pela casa, agitadíssima, contando as novidades que permeavam seus pensamentos mais festivos. Eu, na medida do possível, tentava prestar atenção, enquanto organizava a papelada daquele processo que vem, aos poucos, me tirando a lucidez.

Passado algum tempo, a menina foi se acalmando, e eu pude me concentrar melhor. Sozinha, Maria Cristina colocou um disco para tocar, e pegou um pacote de rosquinhas com leite. Ela adorava sentar-se com o pai no chão da sala, onde devoravam guloseimas enquanto ouviam canções antigas. Talvez ela esteja aprendendo a superar sua ausência, não sei ao certo. Agora compreendo, e sinto, a falta que ele nos faz.

Lá pelas tantas, ela largou tudo para vir me abraçar, sem soltar um pio. Senti seu coraçãozinho batendo retumbante, estava emocionada. Com um sorriso inimitável estampado no rosto, me chamou para "brincar de sonhar". Perguntei se já estava com sono, afinal eram quase dez horas. Mas não. Ela queria mesmo que eu fosse para o quarto, onde sonharíamos acordadas até não mais poder. Tentei negociar, mas não tive sucesso. Só pedi alguns segundos para guardar as pastas em minha bolsa, e lá estava ela, aflita, já vestindo seu pijama de flanela.

Assim que entrei no quarto, ela me perguntou o que eu faria se nossa casa amanhecesse repleta de cãezinhos. E daí começou a tagarelar, imaginando-os rolando pelo carpete, latindo e rosnando para nosso gato rajado, que já idoso, não suportaria tamanho furdunço. Depois, ela imaginou um enorme chafariz de chocolate no jardim, onde passaríamos horas nos lambuzando. Com os olhos fechados, Maria Cristina lambia os dedos e batia as pernas, como quem estivesse mesmo deliciando-se com tudo aquilo.

Do nada, ela me questionou se não estava achando graça na brincadeira. Afinal, se fosse para brincar sozinha, conversaria com suas bonecas. Pode ser que a pequena tenha notado meu distanciamento, atendo-me só a ouvir suas mirabolantes viagens... A verdade é que não conseguia parar de pensar em Ernesto, depois de vê-la sentada com os biscoitos. Aquele hábito era tão deles, e só de me lembrar de toda a rispidez que nos envolveu até a última vez que nos falamos... acabei desmoronando.

Ao notar minha tristeza, Maria Cristina teve a sagacidade de não se deixar levar pela maré, e me perguntou se também sonhara com ele, seu pai, à beira da tal fonte. Eu respondi que sim, com a cabeça, e ela contou que ele estava vestido de branco, todo sujo de chocolate. Justamente o que ele foi comprar naquela noite, quando ensaiava um pedido de desculpas. Mas era eu quem devia ter de me perdoar. Por tê-lo forçado a sentir-se culpado. Por tê-lo feito sair e não mais voltar. Por ter causado em minha filha uma falta que jamais poderá ser substituída...

Com inumeráveis e indescritíveis sensações correndo pelo meu corpo, resolvi cair de cabeça naquele jogo. Sonhei que nós três vivíamos numa colina forrada de margaridas e arbustos, com cães, gatos e renas vivendo livres e dóceis. Tínhamos um poço, de onde era possível puxar baldes e mais baldes de morangos, e uma amendoeira gigante fazendo sombra no gramado. Não precisávamos de dinheiro, nem de televisão, e ao entardecer, ganhávamos asas, para voarmos sobre um lago tão azul quanto céu.

Maria Cristina me interrompeu, bruscamente, dizendo que eu passara dos limites. Ela até compreende que eu sonhe em voar, mas viver sem televisão seria imperdoável. A pequena cruzou os braços e fez bico, afirmando com veemência que a brincadeira havia acabado. Quem diria... tão pequena e já estava viciada na mídia do escândalo. Sem potencializar o assunto, voltei a falar de Ernesto... depois de muito custo, um sorriso brotou novamente em seu rostinho angelical. E então mergulhamos os três, novamente, naquele mar de chocolate, até adormecermos e sonharmos, de fato, com uma vida que infelizmente não voltaremos a ter.

Bonus track: Greg Laswell "Girls Just Wanna Have Fun"


[ Publicado por Rafael Paschoal ]
[14.6.09]
Do amor instantâneo
Dia dos namorados é uma data cruel. Muitos dizem que é uma invenção do comércio para vender mais, e não dão a mínima para essa bobagem. Já quem se importa, e não tem um cobertor de orelha a seu dispor, acaba curtindo a tremenda dor de cotovelo que é ver os casais apaixonados passeando de mãos dadas pelo shopping. Existem aqueles que fazem como Marlom, que se jogou na balada em busca de uma garota que o quisesse tirar daquele sufoco. Solteiro desde sempre, ele já não agüentava mais ter que dar de ombros e fazer muxoxo quando suas tias suadas perguntavam pela “esposa” e se haveria, afinal, um casamento.

Depois de fumar quase todo o maço de Guddang black, debruçado sobre o peitoril da janela de seu quarto, Marlom pegou o carro e foi direto para o bar mais fervido do bairro. Colocou para tocar o novo cd do Black Eyed Peas, que havia baixado há pouco, já para chegar em ponto de bala. Não queria ir pra muito longe, pois naquela noite iria enfiar o pé na jaca, e se tudo desse errado, pelo menos não levaria séculos até voltar para casa. Estacionou numa viela, deu uns tragos no último cigarro e já chegou no bar com a sede inflamável de beijar lábios carnudos. Olhou para um lado, para o outro, fez um pouco de pose... Nenhuma das garotas, entretanto, mostrou interesse em retribuir seus charmes. Sem graça, ele achou melhor mudar de estratégia.

Parado num canto, bebendo seu mojito, ele notou que alguém o observava. Como o bar estava escuro demais, tentou chegar mais perto da pista, para ver se identificava a menina. Deu mais alguns passos em sua direção e percebeu que ela estava com um riso frouxo, quase debochado. Demasiadamente paranóico, já ficou imaginando todos os motivos mais esdrúxulos para que ela estivesse achando tanta graça. Se houvesse bebido um pouco mais, era bem capaz de enfiar-lhe um tapa na cara. Quando chegou bem perto, sem pensar duas vezes, foi logo gritando com a mocinha, como se fosse um esquizofrênico. “Eu tenho amigos, tá?! Eu não vim sozinho! Eles só não chegaram ainda, mas já estão vindo! Não precisa tirar sarro da minha cara pois eu não sou patético o suficiente para sair de noitada sozinho!!!”

Com a mão tapando o sorriso largo, e os olhos arregalados, ela revelou que, na verdade, tinha o achado muito gracinha, e que estava justamente pensando num jeito de chegar junto, sem parecer vulgar ou oferecida demais... Sequer houve tempo para que se apresentassem direito. Marlom a agarrou pelo pescoço e então deram um beijo digno de cinema, com direito a perder o fôlego e ficar com um leve rubor nas bochechas. Enquanto se recompunham, ela revelou que seu nome era Juanita, e que também estava em busca de algo. Ficaram horas se acariciando, descobrindo detalhes apaixonantes sobre suas vidas e, como num passe de novela, talvez influenciados pelo desespero que a data causava, condenaram-se ao namoro. Ali mesmo, em meio aos drinks mal feitos e a fumaça que deixaria suas roupas fedendo no dia seguinte...

Bonus track: Black Eyed Peas - "I Gotta Feeling"


[ Publicado por Rafael Paschoal ]
[9.6.09]
Diário de um suicida
Querido diário...

Hoje eu resolvi me matar. Mas como não tenho nenhum amigo, nem parentes próximos, cabe a você comunicar a todos que minha vida foi uma merda. Quero que saiba, acima de tudo, que essa cambada de filhos-da-puta é culpada por minha miséria. Me largaram sozinho, comendo sardinha com maionese estragada, aqui em Itaguaí. Agora vão se fuder, todos eles. Fui numa funerária e encomendei tudo que eles tinham de mais caro, com direito a caixão revestido de veludo e o caralho. Como o defunto não pode assinar cheque, dei o nome de quem mais me fodeu para pagar a conta, minha mãe. A piranha não me liga há três anos.
Quanto ao método que escolhi para dar fim aos meus dias, não foi difícil. Decidi tomar chumbinho, aquele veneno que mata rato, e qualquer camelô vende, debaixo dos viadutos. Comprei dois potes, e vou misturar com as sardinhas, logo mais.
E para não dizerem no meu enterro que só fui um estorvo, deixo para meu irmão mais novo, o Kaikinho, minha coleção da revista Playboy. Ele está com treze anos, vai fazer bom uso delas.
Só para terminar, gostaria de deixar bem claro que nunca fui a favor da guerra no golfo, nunca debochei do Papa, nunca ri da cara da Ruth Lemos, tampouco chamei o Jô Soares de otário. Admito ter feito piada com a morte da filha da Glória Perez, mas isso todo mundo fez. E como todo homem que honra seus próprios colhões, juro que nunca mais vou escrever diário na minha vida... Literalmente.

Com rancor,
Cleverson

X


[ Publicado por Rafael Paschoal ]
[5.6.09]
Germano turbinado
Germano estava almoçando quando teve um súbito mal estar e desmaiou sobre o prato de acelga ao alho e óleo com molho de tomates-cereja. Ao se refazer do susto, ainda com o rosto sujo de azeite, ele teve uma epifania. Depois de anos sentindo-se culpado por não dar vazão aos seus desejos conflituosos, iria colocar peitinhos de silicone e assumir sua maior tara. Procurou uma clínica de estética, expôs sua vontade e jogou um maço de dinheiro sobre a mesa. Na semana seguinte já estava turbinado, exibindo aos quatro ventos seus novos amigos. Passava horas se namorando de frente ao espelho, passando os dedos ao redor dos mamilos, delirando com a sensação de ter um belo par de melões. Não que ele esperasse que alguém ficasse excitado com aquilo, mas o prazer de bater punheta para o resto da vida olhando para os próprios seios era o bastante para que finalmente atingisse o nirvana...


[ Publicado por Rafael Paschoal ]
[3.6.09]
Um papo entre amigas [ sobre preferências ]
- O Renato me convidou pra jantar hoje.
- Sério, Jéssica? Aquele gato da expedição?!
- O danado! E ainda veio com a camisa aberta!
- Ele adora exibir os pelinhos do peito, né?
- Só pra me deixar ainda mais aflita...
- E aí, você vai aceitar?
- Claro, Cleidiane! Combinamos um rodízio, ali na Vila da Penha.
- Ah... rodízio?! Isso é coisa de pobre!
- E eu, por acaso, sou rica?
- Não, mas podia marcar naquele japonês, perto do shopping...
- É... lá é mega romântico, mesmo.
- Hmmm... Já tá nessa vibe, Jéssica?
- Não é isso... mas vai que ele está afim de me dar uns beijos...
- Então beija logo! Nem janta, corre logo pro motel!
- Não. Motel só depois de uns três encontros.
- Daí ele cata outra que não regula tanto a passarinha e...
- Azar o dele! Não saio dando assim, tão fácil, Cleidiane!
- Isso foi uma indireta?
- Hein?
- Estou perguntando se isso foi uma indireta, Jéssica!
- Não... mas você, hein? Vive na paranóia!
- Sei lá... Vai ver, você não aprova meu estilo de vida.
- Não tenho nada contra... cada um com o seu!
- Tá, vou acreditar! Se fazendo de cocota, toda apaixonadinha...
- Ih, olha o chilique! Tá espinhosa porque?
- Então, é que eu andei pensando... não, esquece!
- Agora conta! Vai, solta logo!
- É que eu, sei lá... tô assim...
- Conta, Cleidiane... O que foi?
- Eu to fazendo análise...
- Sério? Tá acontecendo alguma coisa, amiga?
- Tipo, você não conta pra ninguém o que eu vou dizer aqui...
- Aham... claro!
- Eu to saindo com uma garota. Mas tá foda!
- Peraí! Você tá ficando com mulher, Cleidiane?!?
- Isso, grita mais alto que até o encarregado vai ficar sabendo, sua vaca...
- Mas você gosta tanto de homem, porque agora...
- Porque deu vontade! Pronto, foi isso!
- E você já olhou pra mim com... sei lá, esse tipo de...
- Já, várias vezes! Mas relaxa...
- Não, tá tranqüilo. Conta mais.
- Ah, eu meio que acho uma gracinha quando você ajeita o cabelo atrás da orelha...
- É... tenho essa mania, desde criança.
- E aquela sua blusinha com estampa de gatinho... fica bem legal.
- Ai, to sem graça... mas, assim... fico lisonjeada!
- Vamos naquele rodízio, depois do trabalho? Eu pago!
- Legal. Deixa só eu avisar pro Renato que eu tô de chico... sabe como é...


[ Publicado por Rafael Paschoal ]
[28.5.09]
O valor de cada um
Acordar às quatro da madrugada não era problema para Dona Celina. Pegar um ônibus em Austin para estar em Copacabana ao clarear do dia já havia se tornado um hábito. Ela adorava trabalhar para a família Vianna pois sentia-se valorizada e respeitada. Estava sempre com um sorriso no rosto, mesmo que tivesse desentupindo a fossa da cozinha. Os cães eram adoráveis, e as crianças muito respeitadoras. Seus pratos eram deliciosos, com aquele gostinho de tempero da roça, e muito elogiados nas festas. Mas, num sábado, tudo isso chegou ao fim. Ela caiu do oitavo andar, enquanto limpava as janelas. Apavorada com o acontecido, sua patroa ficou inconsolável. Quem, afinal, iria preparar o jantar naquela noite?


[ Publicado por Rafael Paschoal ]
[19.5.09]
Não sobrou nada?
Quando ela ergueu seu rosto, as lágrimas despencaram. Segurava os dedos com força, esmagando-os uns contra os outros. Sua respiração ofegante crescia em direção ao sufocamento. Já não havia mais tempo para dizer o quanto se arrependera, não havia mais tempo para lutar pelo que perdeu. Tanto orgulho a impediu de dizer as três palavras que quase lhe escapavam pela boca afora, naqueles últimos meses. Três palavras que poderiam ter mudado o rumo de toda sua vida, se tivessem ao menos sido proferidas. Estava tudo acabado. Seu mundo ruíra, e aquela música não parava de tocar em seus pensamentos. Ela chorava em silêncio, desamparada, enquanto a tarde caia lá fora, e até as folhas das arvores iam embora com o vento. Não havia mais nada, além da dor. Nada além do céu alaranjado, e do frio. Porque era tão difícil sentir aquelas três palavras?

Bonus track: Greg Laswell - "Off I Go"


[ Publicado por Rafael Paschoal ]
[13.5.09]
O triste fim do gato rajado
Tinha um gato morto na caixa d’água. Mas ninguém sabia. Todos reclamavam da fedentina que tomou conta do quintal, mas não suspeitavam de que, lá dentro, o bichano estava em decomposição. Procuraram em todos os cantos, mas não descobriram de onde vinha aquele cheiro horrível de coisa podre. E daí começaram as acusações. A troca de farpas. Os insultos. Cada um com o seu cada um. Só que ninguém arredou pé. Criticaram-se, xingaram-se, violentaram-se, mas não descobriram o corpo do bicho boiando na água. A velha surda só gritava coisas aleatórias, a loira manca apontava pra vizinha de cima, e esta dava de ombros, como quem não tivesse nada a ver com o furdunço. Os dedos apontavam para tudo que é lado, mas não era de ninguém a culpa pelo fedor. Só do gato. Que foi curioso e caiu na água. Ele morreu afogado, porque não sabia nadar. E lá estava: inchado, verde, despedaçando-se. Ele só queria ser acariciado. Ele só sabia ser pajeado. Mas ninguém vive de elogios e afagos. Foram semanas até que o encontrassem, mas aí já não tinha mais jeito. Haviam bebido daquela água e, agora, cada um carregava dentro si um pouco do bichano. Finalmente ele conseguiu o que tanto queria. Ser de todos. E não ser mais nada...


[ Publicado por Rafael Paschoal ]
[6.5.09]
Tchubleck-tchublin
Pablo trabalhava como estivador, e nunca tivera um relacionamento estável. Talvez muitos pensassem que a vida fora cruel com o rapaz, mas não era bem assim. Forte e destemido, tinha na solidão um porto seguro. O pouco dinheiro que recebia era muito bem gasto no prostíbulo, onde ele encontrava a paz nos braços de Jacke. Aquela morena de pele jambo e olhos rasgados, cujo culote de belas curvas ostentava inúmeros elogios, era uma mulher delicada. Dentre os muitos talentos da rapariga, alguns indizíveis, a arte de expelir bolhas flutuantes pelo orifício conjugal posterior quando excitada, era o mais inusitado.

Não fazia muito desde que ela se tornara uma atração concorridíssima entre os mais assíduos freqüentadores do local. Era franzina, logo que chegou, mas rapidamente ornou-se com sinuosas melenas de cabelos artificiais. Com o tempo, foi ganhando corpo, e que corpo exibia com toda sua brejeirice. Os seios rijos apontavam em direção ao paraíso, ao qual ela conseguia levar seus clientes com eficácia, sem jamais falhar. Algo, entretanto, era unicamente seu: o amor que mantinha oculto por Pablo, a quem destinava grande parte de sua estima. Os outros clientes não a faziam sorrir, nem vibrar.

Por ele, Jacke borbulhava tanto que o quartinho fétido do puteiro ganhava ares lúdicos de contos fantasiosos. E como ela tinha prazer em soltar aquelas bolhas multicoloridas, toda vez que Pablo a possuía. Uma verdadeira profusão de sensações, as quais sequer temos nomes para descreve-las. A sintonia era tamanha que em dada noite eles resolveram mudar o rumo de seus destinos. Fugiram juntos, bosque adentro, rumo ao subúrbio mais longínquo, onde jamais seriam encontrados ou perseguidos. E pelo caminho, lá se foram mais e mais bolhinhas, que se confundiram com o brilho soturno dos vagalumes até subirem às estrelas, onde tudo é eterno.


[ Publicado por Rafael Paschoal ]
[28.4.09]
Bacon pra que te quero
Tão logo ficou sabendo da pandemia que vinha do México, D. Rabicolina cintilou. Depois de anos sofrendo em vésperas de festividades cristãs, ela finalmente teria como se vingar pela morte do marido. Estava tão contente que serviu o dobro de lavagem para todo mundo. Na primeira ameaça de temporal, colocou todos os filhotes para fora do chiqueiro e deixou que brincassem à vontade. Poderiam esparramar-se debaixo da chuva, rolar pela lama gelada o quanto quisessem. Que eles ao menos pegassem uma gripe bem forte, para exterminar de uma vez por toda com a humanidade. “Nosso nome é legião, porque somos muitos” – repetia incessantemente. Já que a síndrome da vaca louca, nem a gripe aviária conseguiram chegar a tanto, que os porcos tivessem essa glória. Pela honra de todos os toucinhos que foram torrados em vão... Uma pena que, naquela madrugada, ao ver toda a vara dormindo espalhada pelo quintal, um grupo de lobos tenha se fartado silenciosamente com tão lúdico banquete.


[ Publicado por Rafael Paschoal ]
[25.4.09]
Verde pra quê?
Tinha uma lagarta na salada. Verde. Verdinha.Verdinhazinha, de tão pequenina. Maria Lúcia, com seus quatro anos de idade, achou graça, mas não fez alarde. Comeu os tomates cereja, a cenoura ralada, o pepino fatiado, mas ficou com nojinho da alface. É que, para ela, a lagarta fazia parte da folhagem. E por mais que sua mãe tenha insistido, ela não arregou. Deixou tudo no prato, e fez até birra. Não queria que jogassem fora sua lagartinha, e ficou chocada quando o pai, num ato de extrema gula, puxou para si o pratinho, regou as folhas com vinagre e comeu com gosto. Por essas e outras, a pequena tomou ódio de vegans quando mocinha, e sempre pede churrasco mal passado, com bastante sangue no prato quando vai numa churrascaria. Nada de traumas, só uma questão de paladar apurado, mesmo.


[ Publicado por Rafael Paschoal ]
[15.4.09]
Praga bumerangue
Elas podiam não ser melhores amigas, mas cumprimentavam-se educadamente. Apesar de morarem na mesma rua, Marcinha e Natalie quase nunca participavam de uma mesma rodinha de conversas. Seus horários não batiam, coisa normal, e ainda assim havia simpatia entre elas. Isso já bastava, até a festinha no quintal de Heloísa.

Sem saber que Natalie era secretamente apaixonada por Ítalo, Marcinha o chamou para uma confraternização a dois, perto dos jasmins. A loira o beijou furiosamente, pois estava recém-separada e fogosa. Sua sede de homem chamou atenção de todos que estavam na festa, e foi assunto pra mais de uma semana.

Quem não gostou nada disso foi Natalie, que por estar intrinsecamente envolvida com macumba, rogou uma praga na pegadeira. Se Ítalo não era dela, não seria de mais ninguém. E assim foi feito! Quando Marcinha se despiu para o garanhão, deu falta de dois pequenos detalhes: seus mamilos haviam desparecido!

Ítalo, que estava meio bêbado, acariciou suas nádegas e tomou um susto. Lá estavam os mamilos! E foi um escândalo, que não tinha mais fim. Marcinha chorou, correu para o pronto-socorro, mas ninguém tinha explicação para o ocorrido. Ensandecida, foi taxada de louca e internada num sanatório.

Natalie, fazendo-se por desentendida, foi se mostrar caridosa para o abandonado rapaz. Tanto fez, que conseguiu conquista-lo. E três semanas depois, estavam namorando como dois pombinhos apaixonados. Mas a sombra de Marcinha jamais sairia de sua vida, pois como toda mandinga tem volta, ela acordou com a boca entre as pernas. E sua vida nunca mais foi a mesma...


[ Publicado por Rafael Paschoal ]
[11.4.09]
Bah...
Estava tão desestimulado que, sem motivo aparente, resolveu cortar sozinho os próprios cabelos. Pegou a máquina que usava para a manutenção da barba e deu um trato no visual. Ajeitou os óculos, tirou uma foto, e pôs-se a admirar a novidade. Foi ao mercado, comprou umas biritas, chocolate e uma escova de dentes extra-macia. No caminho de volta, deu boa noite para um estranho e ganhou um sorriso de volta. Tem horas que é bom saber que nem todo mundo vive de caretas.

Já em casa, ligou o ar-condicionado, passou a madrugada inteira assistindo a filmes bacanas, ficou de pilequinho e acabou com as caixas de bombons. Uma sensação de alegria corria por seu corpo, como há tempos não sentia. E ao contrário do que sempre fazia, não ligou para ninguém. Nem mandou torpedos. Ficou sozinho curtindo um pouco a própria companhia, e foi tão bom quanto jamais pensou que seria.

No dia seguinte, acordou com um pouco de ressaca. Mas evitou o mau-humor. Calçou um par de tênis que só usava em ocasiões especiais, pegou a rua e caminhou até a beira do riacho. Lá, debaixo de uma amendoeira, ficou observando os sabiás que davam rasantes de uma árvore para a outra, sem pensar nas horas. Tirou do bolso uma barrinha de cereais, a qual saboreou como um manjar dos deuses. Estava tão feliz, mas tão feliz, que acabou sentindo saudades daquele vazio no peito de outrora.

Voltou pra casa descalço, deu um bico num cachorro, xingou a vizinha por ter molhado sua calçada. Bebeu o resto de vodka que deixara no congelador, se encheu de salgadinhos gordurosos e rasgou todas as fotos que ilustravam o mural de seu quarto. Tamanha amargura o fez enxergar que ficar sozinho pode ser bacana, mas o bom mesmo seria ter com quem dividir a culpa por aquele maldito chocolate.


[ Publicado por Rafael Paschoal ]
[1.4.09]
Desconforto
“Suco ou resfresco?” - perguntou Tabatha, escorando-se na porta do quarto. As luzes avermelhadas faziam jus ao preço do motel – mercado de carne viva em putrefação contínua. Estava nua em pêlo, com a depilação cuidadosamente em dia, refletida no espelho da parede oposta a jacuzzi. Calçando um scarpin branco, a prostituta balançava o tornozelo com um quê de nervosismo. Na mesa de centro, um maço de cigarros mentolados perdia-se em meio a revistas de pornografia com as páginas coladas pelo esperma de homens solitários. Ela estava ansiosa, mexia toda hora nos cabelos recentemente tingidos de um vermelho amargo. O ventilador de teto não estava funcionando muito bem, e o calor começava a ganhar todo o quarto.

Passou a mão na mesa, mas não deixou o maço cair. Jogou no chão propositalmente, fazendo cara de nojo. “Destesto gente que fuma, sabia?” – exclamou quem tivesse uma meia suada na boca. “Eu quero mais de você!” – gritou com escândalo. “Faça-me sentir como uma rainha! Agora, seu puto!”– exclamava com os olhos arregalados, antes de virar-se para o frigobar. Pegou o jarro com refresco de caju e deixou entornar pelo piso de tacos. Alguns já estavam soltos, outros estavam mofados, mas ela não se importava com nada disso. Tabatha olhou para a cama e sentiu pena de si. Não precisava passar por aquilo para viver, mas também não resistia ao desejo de se entregar a um estranho por míseros cruzeiros. Sentiu vontade de chorar, mas isso borraria toda a maquilagem. Não houve lágrima alguma, mas também não houve sorriso. Tomaram suco mesmo, e partiram para mais uma rodada. Dessa vez, com ela por cima.


[ Publicado por Rafael Paschoal ]
[24.3.09]
Alivio imediato?
Cátia olhou para um lado, olhou para o outro, fez-se de distraída e arriou a calcinha. Deu uma mijada que escorreu até o asfalto, e então soltou um suspiro de alívio. Depois de se recompor, abriu a bolsa, retocou o gloss e tocou a campainha. Era a primeira vez que jantaria na casa dos sogros, e achou deselegante chegar já pedindo para usar o toillete. Ela só não imaginava que eles tinham um sistema de vigilância flagrando seu momento de alivio...


[ Publicado por Rafael Paschoal ]
[16.3.09]

Como não tinha muito o que fazer, Merinha acordava às 5 da manhã para lavar a calçada com mangueira e desinfetante. Depois, comprava duas dúzias de pãezinhos da segunda fornada, que a segundo a própria eram mais crocantes, para distribuir em sua vila. Mais tarde, lá pelas oito, ela ia para o ponto final do ônibus Piabetá-Penha organizar a fila, pois as pessoas cismavam em ficar atravancando a passagem de quem queria pegar a condução para Caxias. Antes do almoço, já cansada e com as têmporas suadas, ajudava sua prima a limpar o quintal, já que os cachorros espalhavam merda por todos os cantos. À tardinha, ela lavava e estendia as roupas de Dona Cosmerinda, que fora atropelada por um bonde e estava impossibilitada de andar. E quando o sol estava se pondo, ela voltava para o ponto de ônibus, para ajudar novamente a organizar a turba. Ao final do dia, ela sentia terríveis dores nas pernas, e sempre que ia ao médico, não sabia explicar o porquê de tanto cansaço. Antes de dormir, tomava um chá de camomila para aliviar a tensão e ter bons sonhos. Esta era sua vida, até a noite em que se engasgou comendo tremoços em conserva, enquanto assistia ao programa da Hebe. Há quem diga que foi uma morte triste, mas ela já estava habituada à solidão.

[ Publicado por Rafael Paschoal ]
[10.3.09]
Precipitação
Gustavo não queria ir, mas acabou aceitando o convite por insistência de sua mãe. O rapaz ficava pouco a vontade de ir a praia, pois odiava usar sunga. Achava que todas as meninas iriam ficar reparando, e nisso desencadeava-se todo um processo de auto-sabotagem. Mas naquele domingo, ele decidiu ser maduro, não iria ligar para esse tipo de bobagem. Tirou a bermuda, levantou os braços, alongou o corpo e notou que um grupinho de adolescentes ria em sua direção. Certo de que elas estavam tirando sarro de seu volume, lembrou de uma frase de Paulo César Pereio e atirou: “Homem não precisa ter pau grande, não, tá?!? Tem que saber fazer a cara de quem tem pau grande! Isso sim!!” Sentiu-se glorioso, bateu no peito e sentiu-se o homem mais viril de todo o planeta. As meninas, entretanto, ficaram apavoradas com sua reação e o chamaram de grosseiro, pois só estavam rindo da churrasqueira que alguns sem-noção montavam na barraca ao lado.


[ Publicado por Rafael Paschoal ]
[4.3.09]
Respire fundo
Heleyne trabalhava numa lotérica em Irajá, e era daquelas pessoas certinhas. Sempre lembrava dos aniversários de todos os colegas de trabalho, e sempre comia no mesmo restaurante. Não roia as unhas, não repetia a mesma roupa e nem se atrasava para seus compromissos. Estava solteira por opção, já que não era dada a relacionamentos furtivos. Naquele dia, porém, ela estava entediada consigo mesma. Sentia uma vontade incontrolável de burlar as próprias regras. Daí, sem mais nem menos, resolveu pegar o elevador, que àquela horas estava sempre cheio, e soltou um peido. Aquela transgressão foi tão libertadora que ela relaxou. Descobrira um prazer tão simples que nunca mais teve momentos de aborecimento.


[ Publicado por Rafael Paschoal ]
[26.2.09]
Multimarcas
Célio tem um computador 486, curte cachaça de botequim, usa sunga de mercado, ouve qualquer cd que compra no camelô, come podrão na esquina, calça chinelos Katina Surf, bebe cerveja Cintra, usa desodorante Barla, veste Citycol e brinda o reveillon com Sidra Cereser, sem dar a mínima para o que vão pensar a seu respeito…

Joanna escreve num machintosh estiloso, saboreia cachaça artesanal, usa biquíni da Salinas, aprecia coleções de música clássica, lancha no Outback, calça Manolos, bebe chope da Devassa, usa botox como antipraspirante, veste Osklen, e só brinda com Moët Chandon, pois ela preza pela sofisticação para se manter em dia com o glamour.

Os dois se conheceram num bloco de carnaval, onde trocaram beijos como loucos e partiram para um motel na Viera Souto. Banho na hidro, língua no mamilo, fôlego se esvaindo. Ela pediu que ele usasse os preservativos que trouxera de uma viagem a Europa, mas a qualidade não foi suficiente para agüentar o tesão. Em setembro nasceu Jackelinne, que precisou alternar entre fraldas Pampers e outras genéricas porque em tempos de crise não se pode dar tanto valor a merda.

[ Publicado por Rafael Paschoal ]
[20.2.09]
Fé na folia
Quando seus pais anunciaram que toda a família iria passar o carnaval num retiro evangélico, Thaís murchou. Mesmo tendo sido criada sob as rigorosas imposições da igreja, a moça gostava de cair nos blocos, sambar, suar e entregar-se à lascívia que rola solta na festa pagã. Tudo isso na encolha, logicamente. Ninguém poderia saber que ela, moça devota e comportada, escapava na surdina da noite para se vulgarizar com desconhecidos.

No culto daquela noite, ela não orou. Tudo parecia estar perdido, até que sua avó caiu doente, acometida por uma pneumonia que a deixou de repouso absoluto, bem na semana que antecede o carnaval. Tão alta era sua febre, que a velha começou a ter delírios, onde a neta se esfregava compulsivamente em criaturas demoníacas. Cogitou-se, então, adiar a viagem, para que ela fosse internada.

Foi aí que a mente fervilhante de Thaís entrou em ação. Como sempre fora muito prestativa e afável, ofereceu-se para cuidar da avó, enquanto a família poderia fugir dos pecados carnais que os incultos cometeriam naqueles dias infernais. Se a coroa piorasse, Thais ligaria para avisar e eles voltariam. Simples assim. Mas todos tinham certeza de que as orações de fé e devoção da netinha favorita surtiriam efeito.

Sem desconfiar de nada, a familia partiu ao encontro da paz. Thaís, por outro lado, cuidou apressadamente da avó e caiu na pista. Com um shortinho jeans que mais parecia um cinto, jogou-se na depravação e se entregou aos mais impuros dos homens. Beijou na boca, mostrou os seios, sambou até não mais conseguir se manter de pé. Voltou para casa trocando os passos, com um chupão no pescoço e a virilha em chamas.

No dia seguinte, acordou com uma puta ressaca, mas um coquetel de cápsulas estimulantes e sucos a trouxe de volta à vida. O mesmo não poderia ser feito por sua avó, que estava caída no chão, estatelada, dura que nem pedra, mortinha. A velha deve ter tentado ir ao banheiro e não agüentou voltar para a cama, no que desfaleceu. Assustada, Thaís nem tocou no corpo, e correu para o telefone. Chegou a digitar alguns números, quando ouviu o bloco chegando, ao longe. Desligou o aparelho e pensou, por alguns instantes.

Naquele dia, ela teve a certeza de que sua alma pertenceria mesmo ao inferno, por toda a eternidade. Como não havia mais nada a fazer pela velha, colocou-a de volta na cama, ligou o ar-condicionado no máximo e voltou para o ritmo frenético da bagunça. O frio manteria o corpo longe da putrefação, enquanto Thais aproveitaria aqueles dias de festa sem culpa alguma atazanando suas idéias. E ela pulou o carnaval como uma desvairada. Cometeu indecências e se perdeu na luxuria retumbante.

Na quarta-feira de cinzas, exausta, ela acordou ao meio-dia em ponto. Estava tão desidratada, que bebeu uma coca-cola de dois litros sozinha, soltando um longo arroto. Como não haveria mais bagunça pelas ruas, nem blocos ali por perto, ligou para o pai e avisou sobre o falecimento da avó. Sorriu um pouco, por ter curtido a vida sem amarras. E depois chorou, também, pois nem todo folião é de ferro.

[ Publicado por Rafael Paschoal ]
[18.2.09]
Tenha um bom dia!
São sete horas da manhã, e ele já está irritado. Na noite anterior, havia discutido com a esposa e isso atrapalhou seu sono. Acordou depois de um breve cochilo, tomou um banho rápido e mal teve tempo de fazer a barba. O ônibus chega abarrotado de gente e, por descuido, ele acaba pisando no pé de uma loira. Como não percebe o incidente, não pede desculpas, e ela começa a reclamar em voz alta, de modo que todos os passageiros o olhem atravessado. Sem graça, opta por ficar calado, já que isso só iria tornar o seu dia ainda mais desagradável. A dondoca, entretanto, segue reclamando por todo o caminho, e como o coletivo só faz encher, não há para onde correr. Ele pensa em se desculpar, mas isso a deixaria ainda mais cheia de pompa. Presos naquele engarrafamento infernal, sob um calor de rachar, o desconforto só aumenta a medida que o falatório prossegue. Sua irritação chega ao limite quando, enfim, ele resolve pisar repetidas vezes no pé da inconveniente reclamona, até tirar sangue. Agora sim, a capivara desbotada teria motivos para se lamuriar pelo resto do caminho, e ele finalmente conseguiria relaxar, esquecendo de todos os problemas que, até então, inflamavam sua mente perturbada.

[ Publicado por Rafael Paschoal ]
[16.2.09]
O sabor
Primeiro dia de aula, depois da rotina desregrada das férias. Acordaram cedo, tomaram café da manhã e depois arrumaram a mochila. Na merendeira, um suco de uva e mirabel de morango serviriam para matar a fome no recreio. Dalva estava nervosa por reencontrar sua turminha, e por isso não conseguiu terminar o almoço. Seguiram pela rua de paralelepípedos, e o calor escaldante foi a desculpa de Eliane para fugir da dieta e inventar que deveriam tomar um sorvete. “Só para refrescar, Dalvinha”. A menina sorriu, e aceitou a oferta da mãe.

“O meu é sabor de coelho!”, pediu ao balconista. “Sabor de coelho? Esse não tem.” Diante da negativa, ela insistiu. “Quero o meu sabor de coelho!” Cruzou os braços, fez birra e franziu a testa. Impaciente, Eliane ameaçou ir embora quando a pirraça piorou. “Eu quero de coelho, eu quero de coelho, eu quero de coelho!” A menina esta irredutível quanto à sua escolha, e não demorou muito para começar a espernear-se pelo chão, batendo com a cabeça no pé da mãe. O rapaz até tentou esculpir um maldito coelho sobre a casquinha, mas não era exatamente aquilo que ela queria. “Isso não é de coelho!”

Desistiram do sorvete e Dalvinha ficou na escola, com semblante emburrado. Justo ela, que nunca fora dessas coisas, entrou com os bracinhos cruzados e uma “tromba” de meio metro. No caminho de volta, Eliane refletiu sobre o comportamento da infante e teve uma idéia. Passou no mercado, fez algumas compras e já chegou preparando o almoço. Quando a pequena voltou da escola, sob a tutela de Tia Izenilce, encontrou a mãe fatiando cenouras, com um sorriso rasgado no rosto. Seus olhos brilharam como estrelas, e ela exclamou, cintilante: “Mamãe, você conseguiu o sabor de coelho!”

“Então é isso? Cenoura é o tal sabor de coelho?” A menina acenou com a cabeça, afirmativa. “Vá tomar um banho, que você está fedendo a galinha. Tem um surpresa no forno pra você!” Dalvinha correu para a suíte, e quase esqueceu de enxaguar os cabelos, de tão entusiasmada. Sentiu um cheiro diferente vindo da copa, que a deixou com a boca cheia d’água e os dedos nervosos. Desceu as escadas em disparada e, então, deu de cara com uma das cenas mais grotescas e vis de sua vidinha. Em cima da mesa, um coelho assado, com a pele dourada, e uma cenoura cravada na boca.

Em estado de choque, ela sequer conseguiu chorar. Ficou parada, atônita, olhando para aquele bicho assado e fumegante. Eliane, desesperada, jamais poderia imaginar que a filha ficaria tão apavorada com o almoço. Sacudiu-a, abraçou-a e, por fim, jogou um copo de água gelada na cara da menina. Só isso para tira-la do transe. E então veio o pranto. Um choro que perdurou até a noitinha, quando Rogério chegou do trabalho. Foram seis semanas até que Dalvinha perdoasse a mãe. E mais alguns meses para esquecer que seu bichinho de estimação fora cruelmente levado ao forno, sem ao menos ter a chance de se despedir. Aquele trauma a tornaria, anos mais tarde, uma terrorista do Peta, onde seu maior feito fora o envenenamento de 700 pessoas num cruzeiro, ao servir carne de coelho com estricnina.

[ Publicado por Rafael Paschoal ]
[13.2.09]
Encontro macabro
Passava de meia-noite quando o telefone de Keyla tocou. Não foi propriamente um susto, pois seu irmão costumava ligar naquele horário, já que as tarifas para interurbanos ficavam mais baratas na madrugada, e podiam conversar sem se preocupar com a conta. Ela, que já estava pronta para dormir, atendeu a ligação em tom de alegria. Do outro lado da linha, entretanto, era seu namorado, Frediney, quem tinha novidades...

“Feliz sexta-feira 13!! Hoje é dia de maratona, madrugada adentro!! Tá preparada?!” – gritou ele, empolgadíssimo. “Já comprei dois hamburgões na Tia Célia e uma Coca de dois litros! Vem pra cá, gata! Agora!” Keyla olhou para camisola que vestia, para a cama pronta e o para edredon que a esquentaria. Pensou por alguns segundos e foi categórica: “Desculpa, gato. Agora não vai dar. Tenho prova logo cedo, e meu pai vai estranhar se eu sair na madruga. Mas a gente pode fazer a maratona à noitinha, ainda vai ser sexta-feira 13...”

Do outro lado da linha, um silêncio incômodo. Frediney havia criado a tradição de assistir a pelo menos dois filmes de terror na madrugada de uma sexta-feira 13, com muita comida, refrigerante e prevaricação. Mas a recusa de Keyla o deixou aborrecido. Aquela data era mais do que especial para ele, não havia justificativa plausível para se desmarcar. Absorto dentro de sua decepção, ele não se conteve: “Pois eu vou me besuntar com chantilly e bater punheta sozinho! Tá me ouvindo?!”

Aquele era o código para Keyla deixar de lado qualquer resistência de lado. Muito contrariada, ela bufou e acabou trocando de roupa. Como o namorado morava duas ruas abaixo, ela nem calçou o tênis, e foi de chinelo mesmo. Chegando lá, encontrou a porta destrancada, como sempre, e entrou. Numa cena típica de comédia pastelão, a moça o flagrou completamente nu, com a porta da geladeira aberta. “Se você acha que a gente ainda vai ver algum filme, pode ir voltando pra casa, Keyla. To bem sozinho, aqui!”

Aquele misto de frustração e raiva a deixou ainda mais excitada. Com seu jeitinho sacana e lépido, ela pulou para cima de Frediney e beijou-o com sofreguidão. Seus corpos entrelaçaram-se no chão da cozinha, derrubando cadeiras e potes de biscoito. Fizeram amor como aquela fosse a última vez e, de fato, era. O pai de Keyla - pastor de uma igreja evangélica e portador de distúrbio bipolar – a seguira até lá. Como a porta estava aberta, observou a tudo, sentindo o asco preso na garganta, e com um facão bem amolado, acabou com a raça dos safados.

Coberto de sangue, ele fez uma oração e depois destrinchou o casal, colocando-os dentro do freezer, em recipientes individuais, higienicamente lacrados. Lavou as mãos na pia do lavabo, limpou o facão com sabão em pasta, orou mais uma vez, e já ia saindo, quando avistou os dvds da série “Sexta-feira 13” sobre a mesinha da sala. Ao perceber do que se tratavam, murmurou para si mesmo, como um velho babão: “Mentirada da porra! Não sei como perdem tempo vendo essas bobagens...”

[ Publicado por Rafael Paschoal ]
[9.2.09]
Já que o teu silêncio é ensurdecedor
Quando vislumbrou o belo dia que se alastrava lá fora, vestiu uma camiseta, calçou um par de tênis e seguiu rumo ao parque de diversões. Pagou por um passaporte, comeu uma maçã-do-amor e brincou em tudo o que tinha direito, do carrossel à montanha-russa. Há anos não se sentia tão descompromissado, tão livre, tão bem consigo mesmo. Deixou o melhor para o final, como tudo em sua vida.

Sozinho na roda-gigante, ele apreciou o silêncio que fazia lá nas alturas. A ausência total de interferências, de opiniões, de críticas mal construídas e de qualquer outra distração. De cima, pôde vislumbrar o sol se pondo por trás das árvores que avolumavam o bosque, os passarinhos a mergulhar em suas copas, e até as primeiras estrelas que, valentemente, brigavam contra a luz do sol para espalhar seu brilho num céu ainda alaranjado. Sentia-se pleno. Sentia-se capaz de tudo. Sentia-se dono da própria verdade.

Mas quando a roda girou e ele novamente se aproximou do chão, todas aquelas sensações deram lugar a um desconforto insuportável. O barulho das máquinas, as crianças gritando, a música nauseante, os risinhos frouxos, a escória mundana, a terra batida que apodrecia por dentro e o lixo derramado por sobre a grama. Todas as sensações ruins e rasteiras estavam voltando, impulsionando a torna-lo alguém ordinário e mediócre. Um grito há muito sufocado em sua garganta quase escapou...

E então ele voltou para o alto. O vento fresco bateu em suas pernas. Sentiu o alívio percorrendo seu corpo, revigorando o que outrora quase se tornou um desespero... Mas passou! Não era mais nada. Só restou a paz e o silêncio. Aproveitou que o parque estava vazio e pediu para ficar lá no alto, até que não pudesse mais. E a noite caiu, e as estrelas estavam todas lá, brilhando freneticamente. enquanto debochavam de sua patética existência.

[ Publicado por Rafael Paschoal ]
[4.2.09]
Uma dama não comenta
Quando percebeu que as bandejas com carreirinhas de cocaína começaram a correr pelo salão, Reginaldo trincou os dentes. Estava numa fissura tão grande que começou a suar que nem mulher cabaço em véspera do casamento. Esse era um dos aperitivos mais disputados nos churrascos oferecidos por Djair, dono de todos os pontos de jogo do bicho daquela região. Waldiney, capataz do sítio, era quem tomava conta do pó enquanto o povo enlouquecia.

Rosalba, uma ruiva pra lá de esquisita, nutria um amor platônico por Reginaldo há alguns anos, e o fitava discretamente, lá de longe. Ela, que não era dada a usar drogas, fez vista grossa quando o viu avançando em direção ao pó. Seu amor era incondicional, e ela até o deixaria cheirar, de vez em quando, se um dia viessem a ficar juntos. Deu um gole em sua caipirinha e sorriu para Dona Fátima, esposa fiel e sincera de seu amado.

Quando o pagode começou a tocar e o anfitrião se distraiu, Waldiney chamou Reginaldo e Adevilson para dividir uma bandeja de pó no quintal dos fundos. Todos já estavam loucos demais, e o sol nem havia baixado. Rosalba seguiu o trio, disfarçando falar ao telefone. Sem Dona Fátima por perto, ela sentiu que poderia tirar uma casquinha daquele homem, com quem sonhara noites a fio.

Eles já estavam acabando com a primeira rodada quando a ruiva se aproximou, matreira que só. Reginaldo a avistou e, então, chamou para chegar mais perto. Fazendo-se de boba, ela fingia não saber do que se tratava. Mas ele insistiu e Rosalba correu a seu encontro. Ofereceram uma carreirinha, mas ela hesitou. Nunca tinha cheirado antes, e estava com cagaço de fazer alguma merda. Reginaldo insistiu mais uma vez e ela caiu de nariz na bandeja. Ela riu que nem criança quando eles tiravam as camisetas ensopadas de suor.

Depois de três rodadas, Rosalba já estava seminua, sendo agarrada por Waldiney e Reginaldo, enquanto Adevilson lambia o resto da poeira branca que ficara no saco plástico. Colocadíssima, ela pedia para que a chamassem de Dama, e que a deflorassem entre as bananeiras. Com olhos de pantera no cio, fez um strip-tease com o que lhe restava de roupas e perguntou o que eles estavam esperando.

Os cavalheiros atenderam prontamente seu pedido, e curraram-na inúmeras vezes, em diversas posições. Adevilson, com medo de ser flagrado pela mulher, acabou caindo fora da suruba, no miudinho. Completamente histérica, a Dama pediu para beber água de coco, para ficar mais saborosa. Reginaldo atendeu-a, prontamente, e então esbofeteou seu rosto. Ela ria, descontrolada. Depois, já cansados de tanta loucura, colocaram-na para fora da festa, pelo portão que dava para a rua do brejo.

Rosalba foi encontrada pela polícia perambulando pela pracinha, usando somente soutien e sandálias, completamente desorientada. Seus olhos pareciam não encontrar o horizonte, tampouco suas pernas seguima uma linha reta. Quando indagada sobre o que acontecera, ela só conseguia pedir por mais água de coco, pois estava se sentindo um pouco tonta. Na delegacia, ela só pedia para ser currada pelos seus novos cavalheiros, mas oficiais não eram chegados em barebacking, nem dupla penetração anal. Mas depois do expediente, quem sabe, uma chupetinha?


Texto livremente inspirado pelo video que você assiste aqui!!!

[ Publicado por Rafael Paschoal ]
[31.1.09]
O fim
Chegou em casa às oito e quinze da manhã de um somingo, bêbada e desorientada. Adormeceu no sofá, pois não tinha forças sequer para tomar um banho. Quando Adriana pensara que o mundo não podia mais piorar, seu vizinho acendeu a churrasqueira, soltou os cachorros, colocou as caixas de som no quintal, chamou toda a familia e pôs Alcione pra cantar, bem alto. Isso, sim, era o fim! Ela só não se matou pois tinha feito escova de chocolate naquele fim de semana...

[ Publicado por Rafael Paschoal ]
[26.1.09]
Mulher, sempre mulher...
Ela abriu o ferrolho e deixou que a brisa vinda do corredor empurrasse a porta, naturalmente. Só assim conseguia arejar o apartamento, de pequenas janelas e piso de tacos, alugado há tanto tempo que já sentia como sendo seu. Precisava respirar, pois sentia-se sufocada pelos pensamentos compulsivos, que reverberavam em sua cabeça, desde a briga que tiveram na noite passada.

Não conseguira dormir direito, fritou na cama como um bife na chapa, e acabou devorando um livro inteiro da Coleção Vagalume, sem pregar os olhos. Quando percebeu, já estava o sol raiando por detrás dos prédios, e sua rotina precisava recomeçar. Lavou o rosto, como se água fria lhe conferisse algum ânimo, soltando um longo suspiro. Ah, aquela briga... maldita lembrança que teimava em voltar...

Armou a tábua de passar roupas e ligou o ferro elétrico, que demorava cerca de dez minutos para esquentar. Pensou nas palavras ásperas que lhe foram ditas, e cerrou os punhos. Queria socar as paredes, mas não era dada à auto-flagelação. Desamarrotou uma bata para si, e uma blusa vermelha para ele, que ainda dormia. Pensou seriamente em deixar o tecido queimar, mas isso já seria sandice.

Ela já estava coando o café quando o viu despertar, esfregando as mãos nos olhos para tirar as remelas. Entreolharam-se, em silêncio, e assim permaneceram, até que ele saísse do banho, largando a toalha molhada sobre a cama, como protesto. Foi quando ela perguntou se queria manteiga no pão, recebendo uma negativa. O nó entalado na garganta parecia então crescer...

Quando já estavam no elevador, ele abriu mão de seu orgulho e abraçou-a. Não pediu desculpas, mas sorriu de um jeito sereno. Isso já era um grande avanço, para quem costumava ficar dias e dias com a cara fechada. Seus olhos marejaram, e ela segurou-o pela mão. Ainda não conseguia administrar sua mágoa, mas admitiu: - Olha, eu posso não ser completa como aquela mulher, mas sou muito digna! Se te pego batendo punheta pra vizinha mais uma vez, pode ter certeza que te castro na gilete, seu pervertido.

Despediram-se na portaria com um beijo contido, e seguiram em direções opostas. Ele, com ar sacana, sorria como quem tivesse ganhado na loteria. Ela, melancólica, soluçava consigo mesma, por saber que mesmo tendo seios roliços e cabelos compridos, jamais seria capaz de oferece-lo a sensação pavorosa que é discutir com uma mulher de verdade, quando esta tem plena consciência de que está coberta de razão e com as unhas bem feitas.

[ Publicado por Rafael Paschoal ]
[19.1.09]
Um dia quente
O sinal havia mudado do vermelho para o verde, mas algumas pessoas arriscaram atravessar, assim mesmo! Solange estava agachada, afivelando a sandália de couro, quando o avistou, do outro lado da rua. O coração quase lhe escapuliu goela afora. Ali estava o homem por quem fora apaixonada durante tantos anos. Cabelo engomado, barba bem feita, terno risca-de-giz e maleta de couro em punho... “Como ele está lindo, meu Deus!”, pensou a morena, agora ajeitando a alça do soutien.

Os olhares cruzaram-se e, então, veio um arrepio. Ela tentou disfarçar, chacoalhando os cabelos cacheados. Olhou para o sinal, depois de volta para o moço. Uma onda gélida percorreu sua espinha, e ela entrou em pânico ao lembrar que havia se esquecido de passar o baton. “E se ele me reconheceu? Eu fico horrorosa sem baton! Que merda!!”. Meteu a mão dentro da bolsa e vasculhou cada compartimento. Acabou encontrando uma amostra grátis, na cor rubro delírio, que foi de grande serventia.

Foi então que besuntou os lábios, rezando para que não estivesse se borrando. Precisava dar um jeito na vida e comprar um estojo decente de maquiagem. Algo de qualidade! “Sempre maltrapilha. Vai ver é por isso que estou há tanto tempo encalhada ”, criticou-se silenciosamente. Ao perceber que o sinal estava para fechar, ajeitou o cabelo mais uma vez, e fez cara de acaso. Como se acaso existisse, enfim...

“Quando ele estiver atravessando, vou dar-lhe um esbarrão e deixar cair todas as minhas coisas . Não tem como esse puto não me reconhecer!” calculou, perversa e matreira. Sinal vermelho, pisou firme na faixa de pedestres e pôs-se a marchar. Galopou, de tão empinada! Conforme o planejado, deu-se o esbarrão. Ombros se encontrando em branda violência, como que numa coreografia mal ensaiada. Para tornar o momento mais dramático, Solange foi ao chão.

O rapaz, com um ar preocupado, abaixou-se para ajuda-la. Solange fez um ar de desolação e comprimiu os olhos. Parecia sentir dor, mas era tudo teatro. Prontamente, ele segurou-a pela mão e sorriu. Educadíssimo, um verdadeiro cavalheiro a corteja-la. Naturalmente, a rapariga ficou ruborizada com aquele gesto, e sabe-se lá porque, danou a rir como uma louca. Escangalhou-se em uma gargalhada, colocando as mãos sobre a barriga!

Ela ria sem parar, até que começou a ficar vermelha. Estava visivelmente descontrolada, trêmula. Um pequeno tumulto formou-se ao redor do incidente. O rapaz começou a se assustar com a reação de Solange, que arregalou os olhos e ardeu em chamas. Pegou fogo, literalmente. Foi o primeiro caso de combustão espontânea ao ar livre testemunhado por algumas centenas de pessoas no Rio de Janeiro. Pelo menos ela morreu sem saber que Adaílton, a razão de seu afeto, havia casado com outro homem e estava na fila para adotar um pug estrábico da Micronésia.

[ Publicado por Rafael Paschoal ]

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