Contos, crônicas, devaneios, idiossincrasias, nonsense e surrealismo urbano.

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[29.12.09]
Noutros Subúrbios

Suburbanismos de casa nova! Traga sua cadeira e sente na calçada com a gente!

http://suburbanismos.wordpress.com




[ Publicado por Rafael Paschoal ]
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[23.12.09]
Dingoubéls
Ella ganhou um cinzeiro no amigo-secreto da empresa, apesar de não fumar. Já estava suficientemente aborrecida por ter de participar daquela brincadeira com pessoas a quem não suportava nem ouvir a voz, quando recebeu a notícia de que trabalhariam até meio-dia, na véspera do Natal, e ainda fariam uma ceia. Agnóstica, não se importava com os preceitos religiosos que envolvem a data, daí a idéia de causar um pouco com os “colegas”. Apesar de seus dotes culinários não serem lá muito elogiados, ela preparou uma salada de ovos com batatas e serviu a mesa. Todos pareciam se divertir, e ela quase soltou duas ou três piadas sobre satanismo ou pedofilia, mas resolvem se comportar. No fim das contas, não causou mal estar e voltou para casa mais leve. Não chegou a se emocionar com os especiais que passavam na tv, mas riu bastante ao saber que o Papa foi derrubado por uma louca antes de celebrar a missa do galo.


[ Publicado por Rafael Paschoal ]
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[21.12.09]
Demência de repartição
Era seu último dia de trabalho antes do recesso. A empresa estava toda decorada com motivos natalinos, e os sorrisos festivos multiplicavam-se como numa contagiosa epidemia de demência. O correio eletrônico fora infestado por mensagens em pps, onde imagens de anjinhos eunucos saltitavamm com músicas altamente irritantes, além do mesmo bla-bla-bla de sempre. Alguns funcionários estavam organizando um amigo-secreto quando Daiane, de saco cheio com toda aquela hipocrisia, seguiu embucetada até o RH para pedir demissão. De fato, ela era mesmo daquelas mulheres que seguem seus impulsos e chutam o balde. Quando soube que teria de pagar o aviso prévio depois das férias, torceu o nariz e escarrou na caneca da diretora, saindo da sala como se dançasse a macarena. Naquele momento, ela soube que precisaria se esforçar uma pouco mais para conseguir justa-causa. Foi até a sala do chefe, pediu licença para falar e deu uma voadora em seu peito. Eufórica em vê-lo desacordado, tocou fogo no carpete e destruiu o servidor. Sentiu-se a própria Uma Thurman em Kill Bill, quando os seguranças vieram para conte-la com cacetes e extintores de incêndio. Lutou esgueirando-se como um bagre ensaboado e escapou ilesa dos gorilas, que pareciam estar mais preocupados em babar ovo do chefe a conter sua loucura. Adrenalina bombando no peito, Daiane quebrou uma vidraça com a testa, e a esta altura já parecia estar possuída pelo danado No fim das contas, foi domada pelo estagiário de advocacia, que a laçou com o cabo de rede e amarrou num dos porta-pallets. A magia do Natal junto com o desgaste da repartição fez mais uma vítima, que perdeu toda a sua humanidade para viver no canil da empresa junto com os outros animais. E todo mês, na época do cio, ela ainda fazia a festa dos seguranças e encarregados, que não precisavam gastar saliva para conseguir um pele-a-pele.

[ Publicado por Rafael Paschoal ]
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[17.12.09]
A cartinha de Natal
Aquela era a primeira cartinha de próprio punho que Bárbara escrevia ao Papai Noel, e o entusiasmo em fazê-lo era tão cativante que seu pai a filmava com o celular. Assim que entrou para a classe de alfabetização, a menina se divertia com as primeiras letrinhas escapando da ponta do lápis para dançar pelas linhas do caderno. Foram meses e meses de treino, melhorando a caligrafia e colecionando rabiscos. Primeiramente, ela discorreu sobre o fato de ser uma boa menina, mais dois parágrafos foram dedicados ao seu empenho nos estudos, e enfim ela terminou fazendo seu pedido: “Quero um irmão menino e de olhos azuis”

Depois de dar um beijo onde seu nome foi assinado, Bárbara lacrou a carta com um adesivo em forma de coração e a entregou aos pais, que a postariam na manhã seguinte, a tempo de chegar no Pólo Norte antes do Natal. Naquela noite, inspirados pela sensibilidade de sua pequena, Jorge e Lais tomaram as devidas providências para que o bom velhinho não falhasse, fazendo com que o presente chegasse repleto de amor e alegria. Eles já vinham conversando a respeito daquela possibilidade há um bom tempo, e estava mais do que na hora de aumentar a família. Duas semanas depois, a novidade apareceu num palitinho mijado: a menina ganharia seu irmãozinho.

Para não estragar a surpresa, o casal resolveu comprar uma boneca das que imitam bebês, colocando-a embrulhada sob a enorme árvore que piscava na sala. Na manhã seguinte, aproveitando uma distração de seus pais, Bárbara foi futricar naquele estranho presente, que surgira do nada e nem tinha cartão. Virou para um lado, jogou para o outro, até que o brinquedo acionou sozinho e começou o berreiro artificial. Apavorada, a menina pensou que ali houvesse mesmo um bebê e acabou pirando. Como o berreiro não parava mais, ela pegou uma tesourinha de unha e cortou a rede de proteção na janela. Com um pouco de esforço, atirou a caixa pelo buraco e se escondeu debaixo da cama, temendo pelo temível castigo que viria quando descobrissem seu deslize.

Quando Lais notou o rombo na rede e não viu a filha no sofá, um choque correu-lhe a espinha. Procurou-a no quarto, no banheiro e na varanda, mas não encontrou. Aos gritos, chamou pelo marido e debruçou sobre o parapeito, avistando o embrulho caído lá embaixo, em meio aos transeuntes. Por pouco, ela não se jogou também, mas foi salva pelo som do espirro de Bárbara, que era alérgica a poeira. Estavam todos tão nervosos que nem teve bronca, e Jorge nunca se sentiu tão bem por ser negligente na faxina. A boneca foi roubada por alguém que passava pela calçada, e a menina teve que escrever mil vezes que nunca mais atiraria nada pela janela, principalmente seu irmãozinho. Ao menos ela continuaria treinando sua caligrafia perfeita.

[ Publicado por Rafael Paschoal ]
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Eunice e o reino das águas sujas ( Parte Final )
Yerbo acordou com o alvoroço das baratas, indicando que algo terrível estava para acontecer. Arrastando a pesada cauda, ele seguiu preocupado até o covil onde mantinha presa Eunice, acabando por presenciar uma cena aterrorizantemente burlesca. A jovem estava eufórica, com o rato amarrado na garrafa de coca-cola, que fervilhava de tanta pressão. “Como ousa me desrespeitar, sua atrevida?” gritou enfurecido. “Estou de partida, e não há como você me deter, crocodilo asqueroso!” respondeu de forma contundente. “Eu quase morri há alguns meses, jogada ao léu depois de ser atropelada! Só recobrei minha vida porque lutei, e é isso que sou agora, uma selvagem mulher do asfalto! Jurei que nunca mais seria subjugada novamente e te digo: vou-me embora daqui!” Mais uma vez, os covardes vassalos desapareceram, deixando-a sozinha com o rei dos esgotos.

“Não me importo com você, Eunice. Mas esse rato é fiel a mim e não merece morrer. Solte-o, que mostraremos o caminho até a superfície” prometeu o réptil com alguma sinceridade. “Isso não basta! Quero sua promessa de que não tentarão tomar o meu mundo!” condenou a jovem, sacudindo mais uma vez a garrafa. Eunice só não contava com a falta de sorte, que volta e meia assombrava sua vida. Em meio a tanta confusão, ela não notou a horda de lacraias rasteiras que a cercaram, formando um carpete vivo de centopéias. Yerbo, sem se deixar notar, percebeu aquele perigoso detalhe e ironizou: “Foi muito bom conhecê-la, Eunice. Espero que não guarde rancor...” Num movimento descuidado, ela tentou ameaça-lo novamente e acabou levando mais de mil ferroadas. Suas pernas incharam no mesmo instante, e a dor tomou seu corpo. A garrafa de coca-cola caiu no chão e explodiu em disparada, detonando uma válvula que controlava as grandes comportas que cercavam as galerias.

Eunice foi se transformando numa pequena monstruosidade, ao passo que a volumosa torrente de veneno correu por suas veias. Em poucos minutos, todos os túneis foram inundados pela água que passava pelas comportas abertas. Milhares de ratos, baratas e minhocas foram arrastados pela correnteza, assim como o corpo de Eunice, que estava em choque anafilático. Yerbo, apavorado, tentava se agarrar a uma das alças que mantinham as tochas para não ser sugado por um dos dutos que seguiam em direção ao mar. As baratas do mar cáspio, entretanto, confundiram-se com seus gritos e acabaram o empurrando em direção ao redemoinho. Tudo aconteceu em muito pouco tempo, fazendo com a pressão das galerias arrebentasse com os bueiros, transformando a cidade num verdadeiro pântano com chafarizes de bosta.

Eunice foi expelida num canal que desembocava perto da praia de Ramos, coberta por uma lama preta e pegajosa. A prefeitura declarou estado de calamidade, e o Rio de Janeiro virou notícia mais uma vez. Por toda a cidade, ratos invadiram prédios e centros empresariais, assim como baratas das mais variadas espécies subiam pelas paredes de padarias, hospitais e restaurantes. Milhares de pessoas foram picadas por lacraias e sanguessugas, causando pânico, confusão, mortes e correria. Três dias depois, Eunice despertou, sobre uma montanha de lixo e animais mortos. Seu corpo ainda estava deformado, mas a dor havia desaparecido. Ao se dar conta de tudo o que havia acontecido, ela deu uma gargalhada tão gostosa que chegou a se mijar. Estava tentando se limpar quando percebeu que um coelho branco corria desorientado ao seu redor, com um enorme relógio pendurado no pescoço. Começaria ali uma outra história, ou tudo fora um delírio causado pelo coma? Talvez, nunca se saiba, já que Eunice desapareceu, deixando apenas uma caixinha vazia de Menthos sobre a mesa...

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[15.12.09]
Eunice e o reino das águas sujas ( Parte 4 )
Eunice estava distraída lendo um torpedo de seu ex-namorado e não viu de onde veio a pancada que a derrubou sobre um hidrante desativado, perto de Bonsucesso. Foram duas horas estirada ao relento até que notassem seu corpo ensangüentado e, finalmente, viesse o socorro. Apesar de não ter sofrido muitas escoriações, sua mente apagou imediatamante após bater com a cabeça no metal. Os médicos fizeram de tudo para tirá-la do coma, mas não houve resposta. Só o tempo diria até onde iam as seqüelas deixadas pelo acidente, além da enorme cicatriz no couro cabeludo. Após recobrar a lucidez, entretanto, algo passou despercebido. Ela não era mais a mesma moça dócil e frágil de outrora. Algo de obscuro entranhou-se na essência daquela desafortunada convalescente.

Enquanto seguia rumo a ferveção subterrânea, Eunice pensava num jeito de acabar com os planos de Yerbo e voltar à superfície antes do Natal, já que sua família faria um junta-pratos no terraço e ela entraria com o peru enorme e pesado que comprara na mão de um contrabasdista argentino. De todas as épocas festivas, aquela era sua favorita, e nada nesse mundo a faria perder a desculpa anual para sair da dieta. Empunhando a tocha com uma certa destreza, ela seguia observando atentamente as paredes e reentrâncias daquelas galerias, na certeza de que encontraria algo que a desse alguma vantagem contra aquela horda de pestes subterrâneas. O sangue corria por suas veias com um estranho ardor, tal qual veneno, ou ódio incontido.

Foram mais de quarenta minutos seguindo a corrente até que percebeu algo familiar num amontoado de lixo, onde animais mortos misturados com restos de macumba formavam uma verdadeira ilha de podridão. Sim, ali estava sua bolsa de couro, que fora carregada pela turba. Ficou tão eufórica que quase mergulhou para resgata-la, mas bastou bater com o calcanhar no caso das baratas para que elas a levassem até lá, muito obedientes. Apesar dos dejetos que a cobriam, os fechos e a vedação eram de primeira: tudo estava intacto e seco. E qual não foi surpresa ao descobrir que lá dentro ainda estavam sua maquiagem, as chaves de casa, a apresentação encadernada, uma garrafinha de Coca-cola e um pacotinho de Menthos... A fome era tanta que ela quase os engoliu de uma só vez, mas uma estranha epifania revirou sua mente. Guardando tudo de volta, ela pediu que as baratas voltassem à galeria de Yerbo.

O rato cinzento não acreditou quando a viu caminhando, majestosa, sob a luz do fogo que queimava em sua tocha. “Já está de volta, Eunice? O que houve com a sua farra?” perguntou com a voz trêmula. A jovem seguiu em direção ao roedor e abaixou-se, chamando-o para uma conversa discreta. O crocodilo amarelo deveria estar repousando em seu leito, e aquela era a sua chance de encostar o maldito puxa-saco na parede. Com o tom de voz controlado e firme, ela abriu um sorriso doentio e ordenou: “Escute-me, e não tente chamar a atenção de mais ninguém, seu rato imundo. Eu tenho algo aqui dentro que pode destruir todos vocês em dois segundos, então é melhor fazer o que eu digo... ou explodo tudo isso em um piscar de olhos!” Ele tenta não rir, e então pergunta o que ela teria de tão devastador naquela sacola.

Os olhos do rato quase saltam de suas órbitas ao perceber que ela tem em mãos algo que jamais acreditaram existir de fato. Há anos e anos, sempre se ouviu falar sobre a mortífera combinação de refrigerante com balas de menta, mas aquela era a primeira vez que alguém ameaçava explodir todo o seu reino com tamanho requinte de crueldade. “Eu vou perguntar uma única vez, e você irá me responder claramente, ok?” sussurrou Eunice, abrindo a garrafa e jogando as balas lá dentro. “Onde fica a saída deste submundo nojento?”

( Continua )

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[10.12.09]
Eunice e o reino das águas sujas ( Parte 3 )
Sua boca encheu-se d’água quando viu a bandeja de frutas frescas que prepararam em sua homenagem. Maçãs, goiabas, bananas, mangas, ameixas, nêsperas, nectarinas, graviolas e cerejas. Uma profusão indescritível de cores, aromas e sabores, que faria qualquer pessoa regozijar só com o olhar. E Eunice poderia comer tudo aquilo até se fartar, pois ninguém a repreenderia. Aquela era a oportunidade perfeita de se deixar levar pela gula, sem culpa e nem remorso. Sem afobação, nem olho grande, ela se deliciou com as texturas de cada e ainda repartiu com os demais. Seu prazer multiplicou-se ao ver que todos poderiam experimentar aquelas mesmas sensações, por estarem vivos e cheios de vigor. Essa era a melhor lembrança que guardava do dia em que voltou do hospital, depois de passar dois meses em coma por conta de um atropelamento que sofrera na Avenida Brasil.

Naquele momento, entretanto, ela não tinha sequer água potável para matar a sede. Justamente quando sua garganta secou, ao ouvir os planos megalomaníacos do rato cinzento. Olhou em volta, procurando por sua bolsa. Mesmo que a encontrasse por ali, não a deixariam pega-la de volta. Yerbo parecia muito excitado com a idéia de levar seu reino para a superfície, e já sonhava com o harém de fêmeas no cio que o esperaria, depois de consumada a dominação. Passados tantos anos isolado naquela podridão, ele iria procriar e espalhar seus genes pelo planeta. “Sim, eu serei desejado e cobiçado por todas elas” vangloriava-se, tal qual os mais estúpidos dos homens. Eunice, que a essa altura esperava uma distração deles para roubar uma tocha e tentar escapar, quase engasgou-se de tanto que riu. “Você não me considera capaz de tal feito, lepréia esquelética? Pois saiba que minha virilidade vale por mil touros!” ameaçou odiosamente, com os olhos em chamas.

“Não a deixe irrita-lo, majestade. Vosso reino será imponente, e sua virilidade será motivo de cobiça dentre as semelhantes desta perversa delinqüente” palestrou o rato, enquanto ajustava as sapatilhas de borracha. Aos poucos, a galeria foi esvaziando, e o pequeno exército de Yerbo abrigou-se em suas tocas e frestas. Eunice ainda não tinha idéia de como escapar dali, mas sua intuição dizia que as baratas do mar cáspio poderiam ajuda-la a encontrar seus pertences, já que as criaturas asquerosas eram capazes de nadar a uma velocidade sobrenatural. “Eu não me oponho a nada, pois o meu mundo já está em ruínas. Só gostaria que vocês me concedessem o direito de conhecer seus túneis, enquanto planejam o que fazer comigo” flertou a jovem, agora com os seios à mostra e um jeito compulse de falar. O crocodilo parou por alguns segundos, pareceu pensar no que ela havia pedido e então se pronunciou: “Diga-me o que deseja, Eunice. Desde que não seja nada muito...”

“Eu quero que as baratas me levem pelas águas! Quero me acostumar com a vida no esgoto” declarou a mocinha, de forma capciosa. Se tudo desse certo, ela faria com que as malditas nadadoras a levassem até uma tubulação mais próxima aos bueiros, onde teria a chance de fugir e contar ao mundo sobre os planos obscuros daquela estranha civilização. “Seu desejo será atendido, loirinha. Mas se tentar escapar de nossos domínios, lembre-se de que podemos encontra-la em qualquer lugar desse planeta. É só você deixar sua torneira aberta, que estaremos lá, subindo pelo esgoto e devorando suas entranhas” retrucou Yerbo, com uma certa desconfiança na voz. “E se você quer diversão, minhas cáspias sabem muito bem onde leva-la. Sente-se em seus cascos, e elas a mostrarão nosso paraíso escondido.” Eunice sorriu como uma demente, enquanto o rato a entregava uma das tochas “Tome cuidado para que não se apague. Ou você não poderá ver as maravilhas que temos aqui embaixo”.

( Continua )


[ Publicado por Rafael Paschoal ]
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[8.12.09]
Eunice e o reino das águas sujas ( Parte 2 )
Em poucos segundos, a galeria foi tomada por ratazanas, baratas, vermes, lacraias e mais uma infinidade de bichos estranhos. Mais três tochas foram acesas, e Eunice pôde perceber a imensidão que a cercava. Seu coração disparou a uma velocidade muito além do suportável, o que a fez perder os sentidos e desabar mais uma vez. Seu corpo, sujo e fragilizado, caiu sobre as águas causando alarde. O imenso crocodilo amarelo, num suspiro debochado e quase impaciente, ordenou que seus lacaios a salvassem da morte. “Não deixem que essa lombriga morra afogada, levem-na daqui e tratem dessas feridas” Num salão menos úmido, eles cuidaram para que ela não adoecesse. Estava fria demais, quase azul. Todos os seres ao seu redor pareciam entendê-la, e quiçá, também fossem capazes de falar como o grandioso réptil. Rapidamente, seu corpo foi coberto por milhares de anelídeos, que limparam sua pele e sumiram com qualquer resquício de imundice. Depois, um volumoso grupo de ratos envolveu seu corpo, aquecendo-o e conferindo um rubor em seu rosto.

Horas depois, ainda com a visão turva e um gosto terrível na boca, a jovem acordou do trauma e pediu por socorro. “Pelo amor de deus, alguém me tira daqui! Eu vou morrer! Eu vou mor...” Não parecia, entretanto, que alguém estivesse vindo resgata-la. Medo, raiva, fome, insegurança, confusão: tudo se misturava num ritmo frenético em sua mente. Estava quase entregando as pontas quando surgiram quatro baratas brancas do mar cáspio, que a sentaram sobre seus cascos firmes, e a levaram em direção ao imponente crocodilo. “Eis que, finalmente, poderemos ter uma prosa decente. Permita que eu me apresente: sou Yerbo, rei supremo do reino subterrâneo. E esses são meus fiéis serventes” proclamou com orgulho. “Sente-se melhor, frágil garota?” perguntou o gigante escamoso, enquanto alisava sua rotunda pança com a pata de unhas compridas e afiadas. Visivelmente descontrolada, Eunice protestou: “Onde é que estou? O que está acontecendo?” Neste momento, sanguessugas ameaçavam subir por suas pernas, levando-a ao desespero “Quem são vocês, porra! O que querem comigo?!?”

“Nós é quem fazemos as perguntas por aqui, senhorita. Não costumamos ver muitos humanos por aqui. Pelo menos nos últimos cinqüenta anos. E, não se preocupe: não temos a menor intenção de nos aproveitar desse seu corpo, para ser mais sincero” divertiu-se o grotesco Yerbo, ao perceber que Eunice tentava esconder os seios. “Eu fui carregada pela chuva, caí num bueiro e não me lembro de mais nada. Como é possível? Isso deve ser um sonho, ou... Ouch! Mas que merda!” Uma das baratas gigantes a mordeu no tornozelo e pareceu esboçar algo parecido com um sorriso. “Não, jovenzinha. Aqui embaixo não existem sonhos... Não... Poderia me revelar seu nome, ou devo pedir para que algum de meus fiéis escudeiros a amedronte mais um pouco?” resmungou sem muita paciência o dono daqueles túneis. “Eu me chamo Eunice, e sou secretária de uma gr... Bom, eu me chamo Eunice.”

”Sente-se, Eunice. Quero saber mais de você e do seu mundo, Estamos todos muito excitados com sua repentina visita.” Por mais absurda que parecesse a situação, ambos conversaram por horas a fio. Eunice parecia estar se acostumando com o lugar, como se Yerbo exercesse algum tipo de controle sobre ela, e até permitiu que alguns roedores subissem em seus ombros, sem notar a imundice que a cercava. Mais tarde, ficou sabendo como era regido aquele condado de esgotos, toda a hierarquia de vermes, roedores e criaturas disformes, e como era a vida em meio a tanta putrefação. “Estou fascinada. É como num conto de fadas! Só não compreendo como vocês possam ter desenvolvido a habilidade de falar tão perfeitamente se humano algum apareceu aqui nos últimos anos.” Neste momento, surge um rato grisalho por trás de Yerbo, usando chapéu de feltro e sapatilhas de boneca. Ele caminhava com uma certa dificuldade, indicando que talvez fosse um dos seres mais antigos daquele reino. Encarando-a, esclareceu a situação de forma ríspida e concisa: “Isso não é do seu interesse, Eunice. Sua presença aqui nas galerias não é mero fruto do acaso. O destino a trouxe até aqui, e todos sabemos disso. Você veio ao nosso reino para nos ajudar a dominar o seu mundo.”

( Continua )


[ Publicado por Rafael Paschoal ]
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[4.12.09]
Eunice e o reino das águas sujas ( Parte 1 )
Mal conseguiu entrar em casa e a chuva desabou lá fora, estrondosa como nos filmes de terror. Aos poucos, a água foi alagando toda a vila onde morava, já que o escoamento daquela região sempre fora muito precário. Eunice estava nervosa, pois imaginou que acabaria passando mais uma noite ilhada na rampa do metrô, comendo o restinho dos biscoitos recheados que levara para o lanche. Ao contrário do que aconteceu na semana anterior, até que deu um jeitinho de chegar em seu lar sem muito perrengue, mas só ficou tranqüila mesmo depois de tomar um banho bem quente e se jogar na cama. O fim de ano, como de costume, estava acabando com suas forças, e o amontoado de papéis sobre sua escrivaninha prometia uma longa noite de trabalho antes de ficar pronta para a apresentação que faria na manhã seguinte. “A merda é que hoje eu não vou conseguir ver o programa da Hebe...”

Atordoada pelo estridente toque de seu despertador, a loira levantou-se cambaleando e, minutos depois, já estava pronta para o batente. Se dormiu três horas inteiras foi muito, mas o trabalho ficou excelente. “Aqueles idiotas vão ver que eu sou foda!” Tomou uma vitamina de abacate e comeu torradas com geléia de ameixa, enquanto ouvia a previsão do tempo na tv. Deu uma conferida na bolsa, jogou uma garrafa de Coca-cola, uma calcinha limpa e algumas balas: três itens sem os quais ela não conseguiria viver. A maldita chuva persistia sobre toda a cidade, inundando ruas e causando deslizamentos. Eunice resolveu ir de táxi, para evitar qualquer imprevisto, pois se ousasse atrasar meia-hora seria o fim de sua carreira. O problema era chegar até a alameda sem tomar um banho de lama, já que os malditos taxistas não subiam até a rua onde morava, alegando ser área de risco pela proximidade com a favela. Não tinha outro jeito: protegida sob um enorme guarda-chuva, ela foi pulando como um teletubbie os pequenos córregos que beiravam as calçadas, até chegar na estação.

O entorno parecia um cenário de filme catástrofe, tamanha a destruição. Uma amendoeira havia caído por conta dos fortes ventos que varreram as ruas durante a madrugada, impedindo a passagem de automóveis pela avenida principal. Já atrasada, Eunice seguiu em direção à passagem subterrânea que a levaria ao outro lado do bairro, onde conseguiria um táxi com mais facilidade. Lá embaixo, no entanto, a água havia subido até a altura dos joelhos, e só se podia chegar ao outro lado passando por cima de uma passarela improvisada com tábuas de madeira suspensas por tijolos. “É, estou mesmo fodida e mal paga”, pensou enquanto levantava a barra das calças. Um pouco ressabiada, a jovem não teve outra alternativa e seguiu pelo único caminho disponível, tentando se equilibrar como um exímio malabarista. Como azar pouco é bobagem, viu um rato tentando escalar a madeira e acabou escorregando para dentro da água, sendo violentamente sugada para dentro de um bueiro destampado.

Desesperada, a jovem tentou agarrar-se em qualquer coisa pelo caminho, mas a pressão era tanta que foi carregada pela enxurrada até perder os sentidos. Muito tempo depois, acordou boiando sobre um enorme amontoado de garrafas pet, coberta de lodo e lixo. Estava muito frio, muito escuro naquele lugar. Ficou tão atordoada com a situação, que parecia não compreender que estava imersa em tamanha imundice. Havia entrado num estado de transe tão caótico que regrediu aos instintos mais básicos. Sua mente, numa comparação porca e mal lavada, estava no modo de segurança. Fora tão judiada, que comeu os dejetos que foi encontrando pela frente, e bebeu da água suja que escorria pelas paredes. Suas roupas foram se rasgando pelos galhos e pedras pelos quais se arrastava. Eunice estava, pois, quase à beira da morte.

Passaram-se alguns dias e ela, finalmente, voltou a si. Estava fraca e machucada, com os olhos fundos e a barriga oca. Tentou olhar ao redor e, por conta da pouca iluminação, deduziu estar presa numa gigantesca galeria subterrânea, onde desembocavam vários dutos de esgoto e águas pluviais. Por ter ficado tanto tempo naquela escuridão, acostumou-se a enxergar pelo tato e pela audição, e não notou o fedor que envolvia o ambiente. Vasculhou todo o local, tateou as paredes e foi engatinhando lentamente sobre uma pequena passagem de paralelepípedos, na iminência de encontrar um jeito de escapar daquele inferno que havia se instaurado em sua vida. Chorou um pouco ao se dar conta de que, àquela altura, já deveria ter sido demitida, e ninguém dera conta de seu desaparecimento. Isso sem falar no maldito carnê do Ponto Frio, que não foi pago e estava rendendo juros... Eunice não se deu como derrotada; muniu-se das forças que ainda tinha para escapar dali com alguma dignidade.

Estava quase chegando do outro lado quando ouviu algo grande sair da água, como se estivesse a seguindo. Não havia para onde correr, muito menos como se esconder. Suas opções eram mergulhar novamente naquela água podre, ou encarar o que a espreitava. Ergueu-se mais um pouco e notou um par de olhos amarelos e luminosos, fitando-a compenetradamente. O medo que percorreu suas veias acabou se transformando em um impulso gutural: berrou com todas as forças e mostrou que estava disposta a lutar para sobreviver. Pendurou-se numa alça presa à parede e ficou de frente para a criatura, que enfim falou alguma coisa: “Se quisesse fazer-te algum mal, teria arrancado tuas tripas quando ainda estava frágil demais para realizar aonde veio parar, mocinha.” Uma tocha foi acesa, e tal qual não foi a surpresa de Eunice ao perceber que estava diante de um imponente crocodilo amarelo, com quase três metros de altura. “Diga-me, pequena intrusa... como você se chama?”


( Continua )


[ Publicado por Rafael Paschoal ]
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[30.11.09]
Sábado de Sol
Foi uma semana de muita ansiedade para a família Castanheira. Depois de calcular os custos e planejar toda a logística, Seu Jorge conseguiu dar um jeito apresentar seus entes mais queridos aos encantos tropicais da praia de Copacabana. E como era de praxe, levariam cadeiras reclináveis, barracas, isopores bombando de cerveja gelada, frango assado, farofa de ovo, molho vinagrete e aquela churrasqueira emprestada do vizinho. As crianças estavam em polvorosa, imaginando como seria cavalgar em cavalos marinhos, lutar contra tubarões brancos e até nos muitos baldes de camarões frescos que poderiam catar.

Sairiam de Austin em uma carreata, antes mesmo do sol nascer. Queriam pegar todo o esplendor de um dia à beira da princesinha do mar, só retornando ao anoitecer, quando teriam a chance de testemunhar o letreiro da boate Help iluminando o calçadão mais falado do cidade. Seu Jorge, com seu Monza Ret 88 azul metálico, levaria a esposa Charlene e os filhos Clodomir, Agenor e a pequena Relínea. Ela, que sempre assistira as novelas de Manoel Carlos, fantasiava com os artistas que esbarraria enquanto estivesse tomando seu banho de sol sobre a canga com motivos indianos que havia comprado na feirinha de sábado. Se desse de cara com algum cantor, então, seria a glória.

Walter, que era dono de um aviário em Noba Iguaçu e estava recém separado da namorada, levaria os frangos, os isopores e a churrasqueira em seu Fusca vinho, enquanto Joelma se encarregaria de levar Roberta, Cleise, Kahrynne, Suelle, Marcantônio, Luiz Rodrigo, Giuliana e Jorge Pedro na Doblô ( fruto de um divórcio cansativo e perturbador com um ex jogador de futebol que a trocara por um transex polaco ). Guardaram todos os carros juntos no quintal de Seu Jorge, o anfitrião, e fizeram um acampamento provisório em sua casa, para concentrar os preparativos e evitar que algum engraçadinho ousasse se atrasar. Era uma família típica de subúrbio, que a todo momento se embrenhava na casa uns dos outros em busca de cerveja, diversão e fofoca.

Ainda era madrugada quando começou a correria. Deixaram tudo pronto no carros e então foram acordar as crianças, que num pulo só já estavam de sungas, biquínis e bóias em mãos. Sempre muito irritadiça, Joelma zangou com o pequeno Agenor quando o flagrou tentando comer um dos sanduíches de sardinha que estavam na bolsa térmica que trouxera do esteites. Revoltado, ele fez bico e logo se enfiou no carro do pai. Era cachorro latindo para um lado, periquito zunindo para o outro, a confusão estava armada quando, enfim, chegou a hora de partir. Todos dentro dos carros, testa suando de aflição, funk tocando nas alturas e chave do portão havia desaparecido misteriosamente do cadeado.

Procurou-se em tudo que foi bolso, nos cantos dos carros, na beira da piscina e até nos ralos. Nada encontraram. Os homens pensaram em arrombar a tranca, mas daí os bichos poderiam fugir ou até pior: vândalos invadindo a residência durante o período que passariam fora. Muito se descabelou até que Agenor, com seu bico do tamanho de um mundo, confessou ter engolido a maldita chave por engano. Estava com tanta fome que pegou a primeira coisa que viu à sua frente, e lá se foi o chaveiro me forma de morango para seu estômago de avestruz.

Depois de intermináveis minutos de sermão, onde ele bebeu quase dois litros de leite com açúcar, os ânimos começaram a se acalmar. Infelizmente, ao acordar, ele já havia ido ao banheiro, o que dificultaria que expelisse a chave para a liberdade daquela gente ansiosa. Nem mesmo os três mamões que lhe socaram garganta abaixo foram de alguma serventia, já que o pirralho era como um relógio: só cagava ao acordar e depois da novela das oito. Era inexplicavel, mas também era assim que funcionava. Agenor tinha seus cinco anos, mas sabia muito bem o tamanho da merda que havia feito.

Precisariam esperar que a natureza seguisse seu curso, e o menino até pareceu estar gostando de ver tudo aquilo acontecendo ao seu redor. Ao contrário da maioria, ele queria mesmo era ficar em casa jogando vídeo game, e foi com o cabo de seu Playstation que acabou levando umas saraivas por ter arruinado com o fim de semana da galera. Acabaram fazendo um churrasco chinfrim à beira da piscina ao som de um pagode qualquer. Ele só foi colocar a chave para fora no domingo à noite, depois de se empanturrar com bolo de aipim, doce de leite e uvas passas. A aventura da família Castanheira foi adiada, mas eles ainda vão conseguir realizar seu sonho. Nem que para isso tenham que deixar guardado um litro de purgante no armário da cozinha.


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[23.11.09]
A pirraça e os elefantes
Dora jamais escondeu o orgulho que sentia por sua filha: uma doçura de criança que só chorava quando vinham as malditas cólicas causadas pela intolerância a lactose. No colégio, a pequena Rossana tirava notas altas, e era elogiada até pelas serventes pelo comportamento exemplar. Sempre com a cartilha em dia e o caderno meticulosamente bem cuidado, ela ganhava estrelinhas douradas o suficiente para iluminar um céu particular. Com o tempo, entretanto, ela deu a fazer pirraças das mais estridentes. Jogava-se ao chão, batia coma cabeça nas paredes, e enfiava palitos de dente nas tomadas. Certa noite, chegou a babar como uma delinqüente de tanto que chorou, ao saber que jantariam berinjela empanada.

Sem outra alternativa, Dora resolveu partir para a chantagem e ameaçou: “Cada nova pirraça sua, e Deus mata três elefantinhos!” Na hora, a menina até que se assustou com aquela temível possibilidade, mas depois de duas horas, lá estava ela fazendo birra novamente. Queria tomar banho de mangueira à noite, queria sorvete no lugar da janta, queria beber água que brotava na calçada. Apesar das palmadas nas pernas e os castigos, ela continuava tinhosa e persistente. Pouco ligava se o todo poderoso estaria mesmo matando algum bicho por conta de seu comportamento impulsivo. Rossana não lembrava nem de longe a criança brilhante de outrora, cujos elogios foram ficando cada mais escassos.

A coisa foi piorando até uma noite de sábado, quando assistiram a um programa sobre animais à beira da extinção. Ao ver que os elefantes estavam praticamente sumindo, uma onda cavalar de culpa correu sua espinha até chegar no estômago. Rossana imaginou que os animais sofreram mesmo com a fúria divina e acabou explodindo em angústia. Passou a noite inteira com uma forte disenteria, chegando a ter alucinações. De tão perturbada, começou a ouvir vozes assombrosas e atirou-se pela janela. Antes de atingir o concreto, ainda tentou rezar pelo perdão, mas como moravam no segundo andar, só conseguiu fechar os olhos e torcer para que não fosse para o mesmo céu que os malditos elefantinhos.


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[19.11.09]
Mãos ao alto
Quando o meliante sacou a arma e apontou para a cabeça de Giliane, não teve jeito: ela disparou a bater palmas efusivamente. Essa mania estranha manifestou-se pela primeira vez na adolescência, depois de uma noite febril em decorrência da infecção urinária que contraiu no banheiro do salão de festas onde comemorou seus quinze anos. Daquele momento em diante, sempre que acometida por fortes emoções, ela se aplaudia involuntariamente. Por mais que tentasse conter aquele impulso doentio, a balzaquiana era vencida pelas próprias mãos. Foi assim no enterro da avó, no casamento de seu irmão, na sua primeira noite de amor, na extração dos sisos, no naufrágio do Bateau Mouche, até no reveillon que passou presa num engarrafamento da Avenida Brasil. Vários médicos, psicólogos e paranormais tentaram, em vão, conter aquela sina. Tudo em vão, até o fatídico assalto, naquela esquina deserta do Valqueire, onde ela jamais tinha passado antes. Egídio só queria sua bolsa e o iphone, mas quando a ouviu batendo palmas, acabou congelando. Era seu aniversário, e aquele gesto de desespero foi o mais próximo de uma congratulação que recebera. Contendo o choro, o rapaz ajoelhou-se e pediu perdão para Giliane, que livrou-se de uma tormenta e ganhou um amor bandido.


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[11.11.09]
Quem é quem no meio do apagão?
#1 – Normalmente, Sérgio só conseguia dormir depois da meia noite. Ele chegava do trabalho, tomava um bom banho, ligava para a namorada, jantava, trabalhava um pouco, lia algumas coisas da internet, assistia seus seriados e cuidava das plantas. Ontem, porém, ele chegou tão exausto que acabou apagando logo depois da chuveirada. Dormiu tão profundamente que só ficou sabendo do apagão quando entrou no ônibus. E pela primeira vez na vida, não se sentiu tão mal por estar por fora do assunto do dia.

#2 – Rodrigo é um rapaz vaidoso, que gostava de se exibir na webcam para ninfetinhas da alta sociedade. Noite passada, ele estava teclando com uma paquera de Ipanema quando foi pego de surpresa pela queda de energia. Tinha acabado de tirar a camisa, e mostrava com orgulho os bíceps avantajados que cultivara na academia em infindáveis noites de musculação. Do nada, ela sumira do messenger. Logo em seguida, acabou a bateria do nobreak. Sem outras alternativas para passar o tempo e desvencilhar-se do calor, o rapaz pegou uma lanterna e seguiu para a rua. Suas vizinhas, que já estavam sentadas em cadeiras de praia à beira da calçada, adoraram aquela visão descamisada, mesmo que sob a penumbra das velas. O galã, meio que se fazendo de bobo, sorriu para as banguelas. Dona Cosmerinda, cujos oitenta e poucos anos não a impediam de sassaricar como uma garotinha pelas ruas da Vila da Penha, resolveu pedir para tocar no peitoral talhado do rapaz. Foi um momento mágico, que por mais insignificante que pudesse parecer, mudou a vida de ambos. Hoje cedo, ele recebeu um email de sua nova amiga, convidando para dançar um tango no baile da terceira idade, que acontece todas as quintas, na praça de alimentação do shopping. Ele não levou nem três minutos para aceitar.

#3 – Tão logo as primeiras pipocas começaram a estourar, apagaram-se todas as luzes da casa. Regiane então ouviu seu pai amaldiçoando-a por ter insistido em ligar o microondas com toda aquela chuva. A guria ficou chateada por ter perdido um pacotinho inteiro de milho, e ele seguiu enfurecido até a caixa de disjuntores, sobre suas galochas encharcadas. Não demorou muito para descobrirem que a escuridão havia atingido todo o bairro, e por alguns segundos ela conseguiu respirar aliviada. Seu pai, no entanto, gostava de polemizar e a culpou pelo apagão. Discutiram como seres irracionais e, aos berros, o senhor de meia idade acabou arrancando o aparelho da tomada, atirando-o no quintal. Regiane não se fez por rogada: acendeu algumas velas e tirou a velha pipoqueira de despensa. Naquela noite, ela comeu uma tigela inteirinha de pipoca doce, sem oferecer para mais ninguém.


#4 – O elevador parou no 23º andar e a iluminação de emergência foi acionada. Denise e Astolfo estavam deixando a empresa, depois de um cansativo expediente onde o caos costuma ser a única constante e foram surpreendidos pelo apagão quando não tinham energia sequer para manterem-se de pé. Ficaram até mais tarde para fechar alguns processos, revisar propostas e conferir boa parte das contas. Os celulares estavam fora de área, e zelador do prédio não respondia aos sinais de socorro. Com as recentes projeções de uma iminente catástrofe climática, os dois começaram a temer por algo pior do que uma mera queda de energia. Passadas duas horas sem qualquer tipo de sinal do mundo lá fora, Denise tirou a roupa e atacou seu colega de trabalho. Se aquele era o fim dos tempos, ao menos terminariam suas vidas com prazer. Astolfo estava possuindo sua companheira de confinamento quando o fornecimento de energia foi restabelecido a as portas se abriram. Por sorte, ninguém os flagrou naquela situação comprometedora, e ainda deu tempo de gozarem.


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[10.11.09]
A beleza da ironia
Prova cabal de que a beleza não reside nos detalhes, e sim no conjunto, Adulênia era tida como horrorosa por todos que a conheciam. Seus cabelos ruivos despencavam em cachos pelos ombros, e os olhos azuis turquesa que herdara da avó materna, infelizmente, não ornavam com o todo. A rapariga bem que tentava dar um jeito naquela falta de harmonia, mas a verdade é que jamais ouvira um assovio de galanteio, mesmo que de um pedreiro estrábico. No fim das contas, era uma mulher triste e solitária, cujos únicos prazeres resolviam-se trancados dentro do quarto, longe dos olhos de reprovação que lhe eram reservados pela família.

Foi numa manhã de terça-feira que tudo mudou. Depois de passar a madrugada chorando sobre seu travesseiro, Adulênia foi derrubada pela exaustão. Não se sabe qual a receita da mandinga, ou se foi mesmo um milagre: o fato é que a moça despertou com uma forte dor na cabeça, e tão linda quanto uma princesa nórdica. A pele brilhava tal qual uma pérola, emoldurada por cabelos ondulados como o fogo, realçando seu olhar amendoado e cheio de vida. As curvas de seu corpo pareciam torneadas pelo mais talentoso escultor do período barroco, de tão sinuosas e perfeitas. Dizer que ela estava radiante seria blasfêmia. Adulênia experimentava um torpor quase orgástico.

Mas, como tudo na vida, há um preço alto a ser pago. Assim que despiu-se para entrar no banho, ela percebeu que também havia sido amaldiçoada. Da noite para o dia, Adulênia ganhou a beleza de mil mulheres, assim como o falo rijo e volumoso do mais fértil varão. Um pânico quase mortal a levou ao chão, onde permaneceu estática até ser encontrada pela mãe. Toda a beleza que exalara ao despertar foi substituída por um estado irrevogável de catatonia, que durou exatos cinqüenta minutos. Ao voltar a si, caiu no choro, e precisou ser consolada pelos braços curiosos de seus familiares.

Passado o susto, Adulênia resolveu procurar um especialista. Queria saber como poderia ter dormido horrendo para acordar travesti. Como era cética até o tutano, já tratou de excluir a hipótese de macumba ou feitiço. Aquilo não era obra do acaso, tampouco algo sobrenatural. Ao relatar tudo ao médico de plantão, recebeu uma careta interrogativa. Nunca antes fora testemunhado algo desse tipo, e ela seria a primeira pessoa no mundo a transmutar-se espontaneamente. Pelo menos, que se tenha registro. Nada que faça alguém se orgulhar, mas definitivamente era um diferencial.

Muito se falou, muito se cogitou. Mas nada trouxe de volta a sua paz de espírito. Depois de muito sofrer, Adulênia resolveu assumir sua condição de sexualidade ambivalente e mudou de atitude. Comprou alguns balangandãs nas lojinhas do Saara e passou três dias debruçada sobre a máquina de costura. Insistiu tanto que conseguiu apresentar-se no programa do Silvio Santos, onde ganhou com louvor o concurso de transformistas e ainda arrematou dinheiro o bastante para fazer uma cirurgia de mudança de sexo. Só não seguiu adiante porque descobriu, numa noite regada a vinho tinto e libido exacerbada com um ex-namorado de sua irmã, os prazeres da sodomia sob uma perspectiva mais drástica.


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[5.11.09]
A não correspondência
Adélio continuou enviando as cartas para o mesmo endereço, ainda que tivesse se passado uma década desde a última vez que a tivera em seus braços. O rompimento foi doloroso, mas inevitável. Já não se falavam mais com os olhos, pois os mesmos sequer se encontravam. Apesar do não amor, conseguiam evitar o ódio. Tudo seguiu o caminho natural, esmaeceu aos poucos, até não restar mais nem uma gota de querosene na lamparina. Apagou-se o fogo que outrora ardia com a força de mil sóis, e cada um seguiu seu rumo. Levou um bom tempo até que ele percebesse que havia cometido um dos erros mais estúpidos de sua vida. E então já era tarde. Não havia como arrancar a casca da ferida, pois em seu lugar restou uma quelóide: lembrança viva e disforme do trauma causado pela resignação. Numa tarde alaranjada de maio, escreveu a primeira e mais sofrida das incontáveis correspondências. Não recebia respostas, mas continuou naquela função. Um dia, talvez, descubra que suas palavras são lidas, sim, mas não por Ivonete – sua amada. Naquele apartamento, de teto rebaixado e piso de tacos, agora vive uma senhora triste chamada Regina. E seus olhos se enchem de lágrimas, a cada nova entrega que o carteiro faz. Talvez um dia ela se identifique, e se houver coragem... bom, se houver coragem ela assuma que se apaixonou por ele desde a primeira leitura.


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[26.10.09]
Desinibida
Érika salvou a planilha do Excel, largou o mouse e levantou-se de sua baia. Desceu cuidadosamente as escadas, passou pela recepção em silêncio e chegou à rua. Foi caminhando pelo sol, tirando suas roupas a medida que o calor aumentava. Ficou nua em pêlo até beirar a rodovia, e então parou. Por alguns segundos, parecia estar em transe, enquanto um grupo de pessoas se aglomerava nas imediações. Do alto da passarela, um pedinte a chamou de “gostosa”, no que ela respondeu com um salto duplo no asfalto. A platéia abobalhada aplaudiu e ela deu outros mortais. Os carros, em altíssima velocidade, tentavam desviar daquela inusitada situação, mas a sorte não durou muito. Um caminhão a esfarelou, deixando a paisagem da Rio-Petropolis intensamente avermelhada. Era fim de tarde, e ela havia descoberto, por email, que sua cor de esmalte favorita fora descontinuada pelo fabricante. Um fim trágico, mas ela não podia mais viver naquelas condições. Coisas da vida, sabe...


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[13.10.09]
Dia das crianças ou Trauma para toda a vida
Até mais que o Natal, Adelino ansiava mesmo era pelo dia das crianças. Comportou-se bem nas festas, tirou boas notas em matemática e até cuidou do aquário que ganhara da bisavó, sem que um peixe tenha morrido, sequer: só não deixou de puxar o cabelo da irmã, pois quem a conhece sabe que é impossível não se enfurecer com tanta manha e pirraça. Ele era merecedor de um presentão e não se conteve ao ver aquele embrulho enorme sobre a mesa da sala. Quase chorou ao ouvir que só poderia abri-lo depois do churrasco, quando todos já tivessem almoçado. Aflito, acabou batendo um prato de arroz com maionese em menos de cinco minutos. Depois, caiu no sofá, exausto de tanto esperar.

Acordou babando na almofada, com o barulho de papel sendo rasgado e gritos de alegria. Cambaleou em direção a sala até ver que toda a pirralhada estava em festa, com seus novos brinquedos, bonecas e triciclos. O coração de Adelino quase pulou pela boca, quando viu a mãe trazendo seu tão esperado presente. Em poucos segundos, ele desfez os laços e desembrulhou uma amarga surpresa. Aos nove anos de idade, o menino teve seu primeiro grande baque. Foi quando, precocemente, perdeu sua inocência pueril e sentiu o dissabor tão comum a vida adulta.

Diferente do que havia imaginado, ali estava a enciclopédia de seu tio avô, que morrera esclerosado num asilo em Barra de Piraí. Não era um ferrorama, nem um carinho de controle remoto. Ao todo, vinte e cinco livros, ricamente ilustrados. Nem de perto o que sonhara, Adelino também não conseguiu segurar: foi às lágrimas. Seu pai, com orgulho, pensou que o menino estava emocionado. Mas não, era desespero. Naquele exato momento, ele optara por fazer daquilo uma lição de vida. Largou a infância e leu todos os volumes, repetidas vezes, até prestar exames para a universidade.

Cursou medicina, graduou-se em primeiro lugar, especializou-se em neurologia, abriu seu próprio consultório e casou-se com uma garota que conheceu no doutorado. Tiveram dois filhos, e foram muito felizes. Quando seu primogênito completou dez anos, recebeu de presente a enciclopédia, que tanto tempo depois ainda mantinha seu aspecto original. Um cheiro de nostalgia tomou a sala. O mesmo silêncio agora via-se estampado no rosto do menino. No dia seguinte deram falta de Adelino. Ele havia desaparecido, assim como o ferrorama e o carrinho de controle remoto. Na fatura do cartão de crédito, uma viagem para a Disney... Finalmente ele tinha reencontrado sua infância perdia. E a felicidade que perdera por tantos e tantos anos.


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[8.10.09]
Intelectualmente incongruentes
Dalcira forrou a mesa com uma toalha de crochê, parou um pouco para observar o caimento das dobras e suspirou com um sorriso. Depois, distribuiu as cadeiras em forma de semi-círculo, limpou as bandejas de prata e poliu os copos de cristal. As cortinas foram escovadas, para não levantar poeira caso alguém resolvesse ligar o ventilador de teto. Infelizmente, o ar-condicionado não ficou pronto ao tempo, mas também não fazia calor. Naquela noite, a empolgada professora de ioga receberia um grupo de intelectuais e amigos, inaugurando um clubinho fechado onde discutiriam artes, filosofia, política, questões ambientais e problemas da metafísica.

Com o cair da noite, as pessoas começaram a chegar, estacionando seus luxuosos carros na calçada de pedras portuguesas. Regina levou um pacote de biscoitos amanteigados e alguns livros de poesia medieval. Orlêncio apareceu com uma quiche de beterraba marroquina e dois artigos inéditos sobre a nova linha de pensamento na psicanálise. Ecila chegou com um cavelete, papéis de alta gramatura e inúmeros crayons, além de seu inseparável whisky importado. Um pouco mais tarde, quem deu o ar da graça foi Odorico, trazendo um estudo sobre o novo cenário político-social do Rio de Janeiro, além de um pote com vegetais orgânicos em conserva.

Comeram e beberam até não saberem mais discernir suas próprias palavras. A reunião transformou-se num falatório sem o menor sentido, onde cada um ansiava pelo posto de umbigo mais centrado do mundo. Todos se expunham, mas ninguém se ouvia. Exceto por Ariclê, que era surda mesmo e ficou sentada num canto, esculpindo eunucos alados nas almofadas de madeira que adornavam a porta da sala da jantar. Dalcira, que já não conseguia mais absorver tanta informação, acabou gritando como um louca, batendo com os pés no piso de sinteco. O silêncio, então, impregnou-se pelas paredes. Todos permaneceram boquiabertos, até que a anfitriã resolveu quebrar o gelo.

Com a delicadeza que lhe é costumeira, ela seguiu até o receiver e colocou um cd no player. Em seguida, foi ao centro da sala e agachou-se sobre o tapete persa, que ganhara de presente em um amigo-oculto da academia. Dos auto-falantes, uma batida de funk pesado começou a tocar, e a dona da casa contorceu as pernas ao redor do corpo como uma lacraia no álcool. Tomada por uma vontade insana de causar rebuliço, ela foi empolgando seus convidados com uma ginga sensual. A princípio, alguns mostraram-se incomodados, mas por volta de meia noite, estavam todos com a mãozinha no joelho e dedinho na boca, descendo até o chão, para deixar a galera louca.

No fim das contas, todos se divertiram e saíram de lá com a barriga cheia. Mas de intelectual mesmo, ficou só a promessa vazia e imaculada. Dalcira não se queixou de nada, pois finalmente conseguiu se livrar do pudor que a impedia de quebrar paradigmas. Na semana seguinte, ficaram de marcar um novo encontro, e ela já começou a pensar no que poderia fazer para conseguir, mais uma vez, sobressair-se dentre os demais e ainda ser vista como uma pessoa agradável, bem quista. Pensou em servir o leite espesso que vertia abundantemente de seus seios, mesmo não estando grávida, mas lembrou-se que Ecila tinha intolerância a lactose. Sim, ela precisava de outra idéia, mas por hora se concentraria em organizar sua coleção de miniaturas pornográficas.

Bonus track: Gaiola das Popozudas "Proibidão"


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[2.10.09]
2016
#1 - De Saracuruna a Copacabana, Danielise foi empolgando a galera. Aproveitaram o ponto facultativo e alugaram uma van. O grupo estava em polvorosa com a possibilidade do Rio de Janeiro sediar as Olimpíadas de 2016, já prevendo as inúmeras festas e shows que se disseminariam pela cidade em comemoração à conquista. Quando saiu o anúncio, foi só festa. Pernas para o ar, beijo na boca e sensações inéditas. Danielise foi parar num quarto-e-sala da Padro Junior, com o mulambo que esbarrou enquanto comprava um espetinho de camarão frito. Foram três orgasmos, que ela jamais irá se esquecer.

#2 – Carlos Henrique estava no escritório, concentrado em seus cálculos, quando ouviu alguém gritar. Os jogos olímpicos viriam para o Rio de Janeiro, e ele só conseguia pensar no metrô entupido de pessoinhas alegres, vestidas de verde e amarelo, festejando um evento que só traria dívidas e confusão, legados legítimos de tróia para uma cidade que já sofre demais com seu cotidiano caótico e regado a cerveja. Por outro lado, sua esposa estaria tão contagiada com a notícia que até seria capaz de liberar a retaguarda, quando fossem para a cama. Quem sabe?

#3 – Nascida e criada em Ribeirão Preto, interior de São Paulo, Geonda mudou-se para o Rio de Janeiro em busca de sucesso. Foi morar em Copacabana, dividindo um conjugado com duas prostitutas. Não que ela fizesse programas, era só uma pessoa de mente aberta. Ao saber que a campanha Rio 2016 fora selecionada, explodiu de alegria. Desceu até a orla, catou dois gringos e fez uma suruba a três. O problema é que ela esqueceu de usar camisinha e não pegou o telefone dos gringos. Seria mais uma criança bastarda a caminho da cidade maravilhosa...

Bonus track: Ivete Sangalo "Festa ( ao vivo no Maracanã)"


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[28.9.09]
Doce não faz mal só para os dentes...
Ao contrário do que se pensa, Catherine não era uma criança esnobe. Nascida em berço de ouro, cercada de riqueza e ostentação, sempre fora uma menina espoleta, das que correm descalças pelo pátio de terra e ralam o joelho. Problema mesmo era com a avó Lucrecia, que fazia questão dos laçarotes de seda com renda e vestidos bem aprumados, sempre chamando atenção para os “modos”, que as meninas devem ter em qualquer ocasião.

Como seus pais estavam ocupados demais com os negócios da família, Catherine acabou desenvolvendo um carinho especial por Guaracy, sua governanta. As duas passavam boa parte do dia sozinhas, brincando de casinha. Apesar de sentir falta do carinho materno, a menina se divertia bastante com a criada, e era muito bem tratada. E foi justamente num domingo de Cosme e Damião que deu-se a tragédia.

Aproveitando que os patrões haviam saído para um brunch na praia de Santos, a governanta resolveu apresentar seu mundo à Catherine. Vestida com uma camisetinha sem mangas e shorts de flanela, a menina foi correr atrás de doces pelas ruas do subúrbio, onde Guaracy crescera, com muita humildade alegria. A bolsa a tiracolo ia crescendo à medida que ela se enturmava com o resto das crianças, e conseguia cada vez mais saquinhos recheados de guloseimas.

Cansada, mas feliz da vida, Catherine voltou dormindo no ônibus. Tomou banho de olhos fechados, e cai na cama, sem energia sequer para esperar os pais chegarem. Acordou no dia seguinte afobada para devorar seus doces. Correu para a cozinha e não encontrou ninguém. Foi até a sala, e nada. Segui na ponta dos pés até o quarto de Guaracy, mas a mulata havia partido. Com os olhos cheios de choro, deitou-se novamente e por lá ficou.

A pequena nunca soube o que realmente acontecera, mas Guaracy foi flagrada separando os de doces, na bancada da cozinha. Os seguranças a delataram. Sob tortura, depois de muito resistir, confessou que havia levado a menina para fora dos limites da mansão, e foi punida com o rigor de Dona Lucrecia. Arrancaram-lhe os olhos, as pernas e as vísceras. Sua carcaça foi jogada aos corvos e urubus. E os doces foram servidos em finíssimos cristais de murano, como se fossem especiarias para os convidados ilustres do casal.

Bonus track: Iggy Pop & Kate Pierson "Candy"


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[22.9.09]
Sexo é natural, sexo é divertido
- Rogério, tive um sonho erótico com você!
- Cruzes! Como é que foi isso, garota?
- Ah, sonhei que a gente tava numa piscina e... cê sabe!
- Transamos na piscina?!?
- Não! Foi um sonho erótico, não pornográfico!
- Ufa! Só de pensar já fico tenso! Você é minha amiga, Gleide...
- Pois é, você também é meu melhor amigo, mas tem um pinto... e eu tava pensan...
- Pode ir parando! Sei que você anda na secura, mas isso eu não faço!
- Isso o quê, Rogério?
- Nem adianta, que eu não vou te comer, Gleide! Assunto encerrado!
- Mas, Rô...
- Sem “mas”! Você é como uma irmã pra mim! O pinto nem ia subir...
- Pois é, no sonho também não queria subir, mas aí eu fui e...
- Chega! Não quero mais saber dessa história! Tá me dando aflição!
- Rô, vou começar a pensar que você é...
- Sou o que, Gleide? Você anda muito cheia de reticências!
- E você, pudico demais! Senão já teria me passado a...
- Sabia que eu já tive gonorréia? Peguei da Priscilla, aquela minha ex.
- ...
- ...
- Então, acho que vou convidar o Gláucio para dar uma volta.
- Vai ser ótimo. Ele é uma cara muito muito bacana.

Bonus track: George Michael "I Want Your Sex"


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[18.9.09]
Os amores de nossas vidas
Uma canção sofrida de Carly Simon tocava no rádio quando Orlinda acertou a cabeça de seu marido com uma panela de pressão, onde ainda havia um restinho da sopa de ervilhas que eles comeram no jantar. Sim, aquela foi uma noite romântica, em comemoração aos seus dez anos de casamento. A pancada, entretanto, foi tão inesperada que ele sequer teve tempo de reagir. Por alguns instantes, o corpo de Romualdo teve leves espasmos, até não restar mais nada. Sua algoz, petrificada, assistia a tudo com a arma do crime ainda em mãos, no que o refrão da música repentinamente chega ao climax. Só o sangue se movimentava, escorrendo pelas orelhas e narinas do pobre rapaz, deixando o tapete de fibras naturais tão vermelho quanto o amor que diziam sentir um pelo outro. As pupilas, agora dilatadas e estáticas, outrora só apontavam para ela: o ataque fatal apagou tudo. Maldita a hora em que ele resolveu criticar a permanente que ela fizera nos cabelos especialmente para aquela ocasião.

Bonus track: Carly Simon "Coming around again"

[ Publicado por Rafael Paschoal ]
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[15.9.09]
Never felt this way before
Hoje, Marcela decidiu que não iria trabalhar. Depois de tomar uma xícara de café com pouco açucar, a moça escovou os dentes e vestiu-se toda de preto. Cheirou uma carreira de pó, tirou a vodka do freezer e trancou as portas. Com um gorro na cabeça, só os olhos de fora, ligou o ar-condicionado na potência máxima, envolveu-se nos edredons e acionou o dvd player. Assistiria Dirty Dancing, o dia inteiro, e bateria algumas siriricas em homenagem a Patrick Swayze, que fora a inspiração de seu primeiro e mais intenso orgasmo.

Bonus track: Bill Medley e Jennifer Warnes "The time of my life"

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[8.9.09]
Delírios de Rosália
Rosália era uma gordinha safada, que nos dias de chuva se divertia mostrando fartos seios a quem passasse pela rua. Tinha lá seus vinte e poucos anos, mas era como uma criança: boba até não poder mais. Dormia chupando o dedo, e de vez em quando até mijava na cama. Achava graça de tudo, mas se ouriçava toda era com uma boa sacanagem. Deixava-se relar por meninos imberbes, invariavelmente acometidos pelo priapismo juvenil e ejaculação precoce. Divertia-se como uma louca ao ser paparica em troca de sexo, e jamais recusava uma oportunidade de estremecer a terra com seus orgasmos retumbantes. Dentre os fornicadores, era tida como a melhor trepada do século, pois topava de um tudo e ainda pedia bis. Sua farra só acabou quando foi currada por nove estivadores fétidos e mal intencionados. Fizeram dela gato e sapato, e daquela noite em diante, enlouqueceu de vez. Ela foi vista remando em direção a Paquetá, mas por lá, jamais foi vista. É possível que tenha naufragado em seu próprio delírio, ou esteja à deriva, em direção à terras mais promissoras, onde poderá enfim se recuperar do baque orgiástico e começar uma nova vida, com a cintura mais acentuada e batom vermelho nos lábios.


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[26.8.09]
Tormenta
Virgilio acordou bem cedo, com o dia ainda escuro, e pensou seriamente em não sair da cama. Enquanto preparava a marmita, ia amaldiçoando seu patrão por tê-lo mudado para o turno da manhã, justamente na época do inverno. Uma garoa fina começou a cair quando ele trancava o portão, e só então lembrou que o guarda-chuva havia ficado lá dentro. Pegou o ônibus já cheio, mas achou um lugar no fundo, onde poderia respirar, se tivesse um pouco de sorte. Lá fora, a chuva foi aumentando, tal qual o vento. Os vidros embaçaram quando todas as janelas foram fechadas, e fez-se a sauna. Crianças chorando, homens tossindo e mulheres resmungando. O coletivo transformava-se, aos poucos, numa sucursal do inferno. O coitado suspirou, lembrando que poderia ter ficado em casa, ouvindo seus discos de Mercedes Sosa. Mas ele colecionava dívidas há um bom tempo, e esse era um luxo que não podia se dar. Pela janela, ele viu que a rua já havia se tornado um pequeno córrego. O trânsito foi ficando cada vez mais lento, até que parou. Os carros não andavam, e algumas pessoas começavam a subir em bancas de jornal. A água começou a invadir o ônibus, e alguns cachorros eram carregados pela correnteza. Minutos depois, alguns carros já estavam submersos e o pânico tomou conta de todos. As portas estavam emperradas e tudo aconteceu muito rápido. Estavam debaixo d’água, sufocando... e Virgílio deu pulo. Seu teclado estava ensopado de baba, o dono da empresa esperava explicações para aquela sonequinha no meio da tarde.

Bonus track: Mercedes Sosa "Alfonsina el Mar"


[ Publicado por Rafael Paschoal ]
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[24.8.09]
Feliz Aniversário
Glória Rejane assoprou as velas que adornavam seu bolo de aniversário e fez um desejo. Ela era a típica garota de subúrbio, que escrevia em diário, comia batata-frita com ketchup e vivia sonhando com seu príncipe encantado, que a levaria para bem longe dali, onde os tiros das favelas não poderiam ser mais ouvidos. A guria também acreditava muito em simpatias, apesar de não ter religião. Acenderam as luzes e aplaudiram a aniversariante, que deu o primeiro pedaço para o pai, o segundo para a madrasta e guardou um terceiro, que mais tarde iria para dentro da fronha de seu travesseiro. Aquele iria trazer o amor de sua vida, ela tinha certeza. Acordou na manhã seguinte com a boca coberta de formigas. Tamanho desespero a fez pular da janela e cair no pátio do prédio, onde foi milagrosamente amparada pelo colo robusto de Sérgio Rogério, o novo vizinho do 405. Ele se apaixonou no mesmo momento, mas ela só descobriu o amor depois que seus lábios recuperaram a sensibilidade, pois o beijo em si era tudo oque ela sempre desejou, apesar do chiclete de canela que ele devia estar mascando há pelo menos quatro horas...

Bonus track: Kylie Minogue "In My Arms"
[ Publicado por Rafael Paschoal ]
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[12.8.09]
Diário de uma mulher vingativa
Querido diário.

Hoje o Manel me bateu. E não foi uma tapa na cara, nem um soco na boca do estômago. Para minha surpresa, eu tomei uma vassourada na bunda, mesmo. Sem motivo aparente, ele se revoltou comigo e começou a me chamar de piranha imunda. No começo, eu até que gostei, achei excitante, pensei até que a gente iria fazer alguma sacanagem bem pervertida na cama. Engano meu, ele não queria meter em mim.
Na verdade, queria meter a porrada, mas eu não deixei. Saí correndo, que nem uma louca, quando ele me deu a primeira vassourada. O pior é que eu tinha acabado de passar henê nos cabelos, e a rua inteira me viu com o saco plástico de supermercado enfiado na cabeça. Foda-se todo mundo, quem manda no meu cu sou eu e ninguém tem nada com isso.
Fui correndo até a casa da minha irmã, que não podia saber da briga, senão teria um infarto. Fiz a boba, disse que tava com saudades, e pedi um copo de Coca-cola, com gelo e limão. A coitada trouxe rapidinho, e ainda me ofereceu um pouco do biscoito champanhe. Só deus sabe o quanto eu fico louca da bacurinha quando como esse biscoitinho, molhado na Coca-cola... puta-que-me-pariu!
Quando já tava bem tarde, voltei para casa, e o Manel tava deitado. Fui pro banheiro tirar o creme da cabeça, e liguei a televisão, para espairecer. Acabei dormindo no sofá, e só acordei de manhã cedo, com o filho-da-puta do meu marido pedindo para passar o café dele. Também não me fiz de rogada, mijei num copo de geléia e misturei na água fervendo. Tomara que ele sinta o gosto de mijo dormido e se lembre que não sou saco de pancadas. Ai dele se me bater de novo. Nem imagina o que eu posso fazer com um bolo de chocolate com recheio cremoso...

Rochelle.


Bonus track: Ana Carolina "Implicante"

[ Publicado por Rafael Paschoal ]
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[7.8.09]
Do ralo pra panela
O maior problema de Dona Eneida era decidir o que fazer para o almoço. Macarronada? Omelete? Bife com batata-frita? Purê de berinjela? Salpicão? Todo dia era a mesma pendenga: perguntava ao marido, ao filho caçula, e até para a afilhada, que não tinha nada a ver com a história. Ninguém tinha sugestões, só queriam saber do prato quentinho sobre a mesa. Depois de tantos anos cozinhando, a cansada dona de casa já havia até perdido a vontade de comer. Só se alimentava porque era preciso, e nem ligava se o feijão estivesse aguado demais. Em alguns dias, inclusive, preferia mergulhar biscoito champanhe no café com leite a bater um prato de comida.

Era quase meio-dia e ela ainda estava lavando a louça do café da manhã, quando ouviu um barulho estranho na área de serviço. Logo de cara, pensou que fosse um rato. Correu até a despensa, mas não era de lá que vinha o ruído. Olhou nos cantos, procurou atrás da sapateira, e até debaixo dos armários, até ouvir novamente aquele som estranho! Havia algo dentro do ralo, arranhando a tampa, vindo do esgoto. Assustada, Dona Eneida chamou o marido e apontou para aquela coisa, que subia pela tubulação... Ele deu de ombros, dizendo que era a espuma da máquina de levar e, numa atitude tipicamente machista, virou as costas, deitando-se novamente no sofá, onde a garrafa de cerveja o esperava suadinha.

Acuada, ela não podia fazer nada além de temer o que sairia dali. Continuou na função doméstica, mas sempre de olho naquele canto. Preparou um almoço básico, para não ter como perder de vista a saída do ralo. Arroz, feijão e alguns ovos fritos: foi o que almoçaram, de bom grado e barriga cheia. Dona Eneida sequer colocou uma garfada na boca. Estava atenta ao que acontecia na área. Sua aflição começava a ganhar ares de paranóia, quando ela cogitou tratar-se de um jacaré vindo do esgoto. Estavam todos deixando a mesa quando ouviu-se um estalo. Era a tampa de aço que se soltara, revelando um par de garras alaranjadas, que escapavam da tubulação. Logo, o piso estava repleto delas...

Dona Eneida não conseguia acreditar, mas o ralo de sua área de serviço estava vertendo lagostas vivas e sadias. Nunca antes tinha visto uma de perto, e agora estava diante de uma verdadeira invasão. Rapidamente, ela colocou toda a família para catar os bichos, que iam sendo jogados em baldes, em bacias, no tanque e até na máquina de lavar. O gato se assustou e saiu correndo, enquanto o cachorro latia enlouquecido, para aqueles pequenos monstros que avançavam em sua direção. Como elas não paravam de sair do ralo, a solução foi prender a tampa novamente e veda-la. Ainda sem fôlego, a dona de casa olhou ao seu redor e levou as mãos aos céus. Sua vontade de cozinhar havia voltado! Naquela noite, jantariam lagostas cozidas com batatas amassadas, até não agüentarem mais.

Ela sabia que custava uma verdadeira fortuna comer lagostas num restaurante medianamente sofisticado, e por isso tratou de pedir ao filho que procurasse receitas requintadas na internet. Temente a deus, ela tinha certeza de que aquele acontecimento era uma intervenção divina, e tratou de fazer bom uso dos bichos, com o todo respeito que tratava uma galinha, que mais tarde se tornaria uma canja. Como seu ralo não parava de produzir aquela distinta iguaria, Dona Eneida decidiu popularizar a lagosta. No dia seguinte, pendurou uma placa no portão e ofereceu pratos finos a preços módicos para a comunidade. E quem completasse a cartelinha com cinco selos, ainda podia levar uma garrafa de sidra. Ela só não fornecia as taças, porque aí já seria muito abuso.


Bonus track: The B-52's "Rock Lobster"
[ Publicado por Rafael Paschoal ]
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[31.7.09]
Até quando ainda houver sol
Caiu a tarde e a situação permanecia inalterada. Sem internet, sem telefone, sem energia elétrica, sem carros, sem comunicação, sem nada... Tudo parou de funcionar, como que num efeito dominó ou passe de mágica. O céu alaranjado foi torna-se escuro, ninguém tinha notícias do que acontecia além de seus próprios quarteirões, e um medo quase desesperador começou a rondar a vizinhança. O que teria causado aquele blecaute total? Porque é que nada funcionava? Até quando duraria aquele tormento?

Gabrielle estava com calor e, numa tentativa de não se esvair em suor, seguiu para o quintal, onde deitou-se na grama e ficou observando as estrelas. Nunca havia imaginado que poderia ver tantas constelações a olho nu. Em alguns momentos, poderia jurar que o céu se movimentava como um tecido bordado em lantejoulas. Estava tão fascinada com aquele cenário, que até esqueceu da situação calamitosa pela qual estavam passando. Ficou lá, quieta, imóvel, enrolando a ponta dos cabelos cacheados entre os dedos, sozinha com os grilos, que agora eram os substitutos mais próximos de seu mp3 player...

Dona Glicéria, que passou quase toda sua vida sem tais modernidades, armou sua cadeira de praia sob a amendoeira. Com um leque em punho, refrescava-se calmamente, enquanto tudo ao seu redor parecia desmoronar. Havia acompanhado o por-do-sol pela janela da sala, saboreando um bolo de laranja. Só lamentava pela torta salgada que estava na geladeira, que havia sido especialmente preparada para a reunião dos paroquianos. Fora isso, dormiria com as janelas abertas, pois a tela de náilon impediria a entrada dos pernilongos. Nada mais a preocupava.

Silvia e Rogério estavam apaixonados, e por isso nem sofreram com o baque do apagão. Ficaram namorando, deitados na rede da varanda, na esperança de que tudo aquilo se normalizasse. Conversavam em sussurros, planejando um futuro colorido e com fogos de artifício. Seus beijos quase os alimentava. A vida a dois era tão mais confortável, que passariam o resto da existência se abraçando. Conseguiam entreter-se apenas com os seus próprios olhares, e o tempo que se passou não contava para eles.

Eles ainda não sabiam, mas o mundo ao seu redor havia deixado de existir. Os cachorros não paravam de latir, e uma revoada de andorinhas passou em direção ao bosque que ficava algumas quadras depois do shopping. Algumas pessoas passaram a noite em branco, jogando conversa fora. Outras, mais apavoradas, rezavam pela intervenção divina. Era apenas uma questão de tempo até que suas histórias também chegassem ao fim.


Bonus track: Creed "What If ?"

[ Publicado por Rafael Paschoal ]
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[8.7.09]
Antes que seja tarde
“Essa vai pros corações solitários” sussurrou Isis no microfone, enquanto esticava o braço para alcançar seu acordeom. Usava tranças nos cabelos e as unhas eram pintadas com pequenas flores brancas. Tinha saído de Campo Grande com a tarde ainda clara e seguiu de trem até o Centro, onde pegou um táxi para Copacabana. O bom de ter chegado cedo é que poderia arrumar suas coisas com calma e deixar o palco do jeitinho que gostava. No camarim, passou cajal nos olhos, um batom levemente dourado e três borrifadas de perfume, porque nada é mais importante do que estar cheirosa. Tomou algumas caipirinhas, já nem contava mais, antes do bar encher. Esta noite, faria um especial só de canções para que sofre com os sintomas da saudade.

“Ainda penso em você, a cada manhã e cada beijo que não demos” foi o que escreveu Dado num torpedo para sua ex-namorada. Estavam separados há dois anos, mas ele não conseguia superar a distância. Até havia tentado se envolver com outras pessoas, mas o coração tem vontade própria. Nada que tivesse de novo poderia se comparar, de forma alguma, com o que tiveram. Ele ainda nutria esperanças de que, com um boa dose de tempo e saudade, ela o aceitaria de volta. Beijou a foto que ainda ilustrava sua mesa de cabeceira, com a devoção que se deve a uma santa. Suspirou, com ares de quem estivesse apaixonado e apagou a luz do quarto. Saiu do Méier pouco antes das dez, pois ainda pegaria dois amigos antes de seguir para o bar.

“Se dormir antes de eu chegar, saiba que te amo” rascunhou Janalenne num pedaço de papel de pão, que prendeu na geladeira com um ímã dos de farmácia. Vivia sozinha com a filha, numa favela de Cascadura. Mal conseguiam se ver, por conta dos horários discrepantes na luta diária pela sobrevivência. Havia largado o cigarro, e isso a deixava um pouco ansiosa. Enquanto descia o morro, ajeitou a marmita dentro da bolsa, para que não sujasse o casaco. Iria cobrir sua irmã no balcão do bar, pois estava juntando dinheiro para mandar uma ajuda ao resto da família, que havia ficado no interior da Bahia.

“E por hoje é só” disse Everaldo, agradecendo a presença de todos. Já passava de três horas da manhã, e os clientes ainda estavam animadíssimos. Tudo o que ela queria era fechar aquelas portas e deitar ao lado de Analice, sua esposa. Mas desde que comprara o bar, por mais que estivesse sempre lotado e cercado de pessoas de boa índole, o peito ardia em angústia. Tudo o que ele realmente queria era continuar com a barraca de frutas nas feiras-livres que circulam pelos subúrbios. Acordava cedo, sim, mas tinha todo o tempo do mundo para curtir a família e não sofrer com a maldita saudade.

Bonus track: Pato Fu "Antes Que Seja Tarde"


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